Iniciativas para Acelerar a transição energética
A versão mais recente do negacionismo climático, embora não rejeite a existência do aquecimento global, busca desacreditar e atrasar soluções como as energias renováveis. A ideia de que a tecnologia ainda não está madura ou que é financeiramente inviável permeia esse discurso. Esse movimento tem o efeito de retardar a transição energética em um momento em que ela precisa avançar rapidamente. Frente a essa realidade, cientistas estão se mobilizando para fazer frente a essas narrativas.
Um dos mais significativos legados da Primeira Conferência para a Transição dos Combustíveis Fósseis, que ocorre na caribenha Santa Marta, na Colômbia, desde 24 de abril, é a criação de um painel internacional científico focado na transição energética global. Com sede em São Paulo, o painel trabalhará em estreita colaboração com governos, visando acelerar esse processo nos próximos cinco anos.
A proposta surgiu de um pedido da presidência brasileira da COP30 ao climatologista Carlos Nobre e ao pesquisador Johan Rockström, do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático. O objetivo é fornecer informações científicas ágeis que orientem as políticas públicas para uma transição efetiva longe dos combustíveis fósseis.
Atualmente, o mundo já conta com uma vasta quantidade de conhecimento científico sobre os riscos da inação climática e as vantagens das fontes renováveis de energia, que abrangem desde a saúde até a segurança energética. Contudo, a nova iniciativa busca garantir que essas informações se alinhem mais efetivamente aos planos governamentais, visando uma eliminação mais rápida dos combustíveis fósseis e, assim, evitar que a temperatura média global exceda 1,5 °C.
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Embora essa meta esteja sob ameaça, a ciência ressalta a urgência de ações para conter esse aumento dentro de limites seguros. Em cada fração de grau, reside uma diferença significativa para a segurança do planeta.
Durante o lançamento do painel, a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, destacou o crescente abismo entre a ciência e as decisões políticas ao redor do mundo. “Estamos enfrentando um negacionismo que distorce os impactos das mudanças climáticas e um lobby econômico que desvia o foco da ciência nas decisões governamentais”, afirmou em entrevista coletiva.
Conferência em Santa Marta Reúne 60 Países em Busca de Soluções
A conferência em Santa Marta reúne representantes de 60 países, 400 cientistas e membros da sociedade civil, incluindo populações indígenas e afrodescendentes, todos discutindo estratégias para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. “A criação deste painel nesta conferência reafirma a determinação dos países aqui presentes em fundamentar nossas decisões na ciência”, destacou a ministra.
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Fonte: cidaderecife.com.br
Uma inovação deste painel é a liderança de cientistas com expertise em energia e economia. O painel conta com Gilberto Jannuzzi, professor de sistemas energéticos da Unicamp, como um dos co-presidentes, ao lado de Vera Songwe, copresidente do Painel de Especialistas de Alto Nível em Financiamento Climático, e Ottmar Edenhofer, diretor do Instituto Potsdam.
Rockström explicou que a principal tarefa do painel será identificar como superar as barreiras econômicas e sociais que os países enfrentam, garantindo uma transição ordenada e acelerada para um futuro sem combustíveis fósseis. “Aplicaremos as mais recentes metodologias de revisão de políticas para encontrar as combinações mais eficazes em diferentes contextos”, complementou.
O pesquisador sueco, reconhecido por seus alertas sobre os limites do planeta, e Carlos Nobre foram os responsáveis pela idealização do painel, que busca alinhar ciência e negociações climáticas. Durante a COP30, ambos coordenaram a seção científica, onde até mesmo realizaram uma ação simbólica para destacar a importância de limitar o aquecimento a 1,5 °C.
O painel não visa criar um novo consenso científico, como o IPCC, mas sim fornecer dados práticos para embasar decisões políticas. O objetivo é apresentar recomendações claras para países como Colômbia, China e Índia, estabelecendo metas até 2030 e delineando as melhores opções de políticas públicas.
O primeiro relatório do painel está previsto para ser apresentado na próxima conferência do clima, a COP31, marcada para novembro na Turquia, em co-presidência com a Austrália.
Além disso, a organização da conferência de Santa Marta envolve um processo em que mais de 400 pesquisadores elaboraram recomendações para os representantes governamentais. Este relatório inclui propostas para políticas energéticas, diversificação econômica e incentivos financeiros, visando também os benefícios à saúde e uma possível prosperidade em um mundo livre de carbono.
“Caso a era dos combustíveis fósseis, incluindo os petroquímicos, chegue ao fim, será em um lugar como Macondo, onde o impossível é uma forma de verdade”, concluiu Andrés Del Castillo, advogado sênior do Centro para Lei Internacional Ambiental, referindo-se à emblemática vila do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, que está nas proximidades de Santa Marta.
