Desafios das mudanças climáticas para a saúde pública
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, realizada em Belém (PA) até 21 de novembro, destacou um tema central para o setor público: a necessidade urgente de adaptar os sistemas de saúde às mudanças climáticas. Para orientar essa transformação, o Ministério da Saúde do Brasil lançou o plano de ação em saúde de Belém. Desenvolvido em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e outras instituições, o documento traça um roteiro para que os sistemas públicos enfrentem os desafios impostos pelo aquecimento global.
Estratégias do Plano de Ação em Saúde de Belém
O plano reúne estratégias operacionais voltadas para a preparação das redes de saúde diante do aumento das temperaturas, inundações, secas e tempestades, que já causam impactos diretos na saúde da população. Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), ressaltou que esses eventos extremos já provocam mortes e sobrecarregam o atendimento público.
O relatório Lancet Countdown de 2025 reforça essa realidade: as mortes relacionadas ao calor aumentaram 23% desde os anos 1990, ultrapassando meio milhão por ano. Com foco na adaptação, o plano propõe três eixos principais: fortalecer ferramentas de monitoramento e vigilância, acelerar ações baseadas em evidências com cooperação internacional e estimular a inovação para atender às diversas realidades de saúde.
O Ministério da Saúde destaca que é fundamental reconhecer as desigualdades sociais e garantir a participação comunitária em todas as etapas do processo. Embora a adesão ao plano seja voluntária para os 198 países signatários da UNFCCC, cada um pode adaptar as medidas conforme suas necessidades locais. Até o momento, o ministro Alexandre Padilha informou que o plano já conta com mais de 80 apoiadores entre países e instituições.
Grupos vulneráveis e a complexidade da adaptação
Crianças recém-nascidas, idosos e pessoas com doenças crônicas estão entre os mais afetados pelo calor extremo e outros efeitos climáticos. Segundo Guilherme Franco Netto, da Fiocruz, as ondas de calor podem provocar distúrbios fisiológicos pouco conhecidos pelos profissionais de saúde, o que demanda treinamento especializado para as equipes. A adaptação dos sistemas, portanto, precisa levar em conta essa complexidade.
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Desde a COP21, com o Acordo de Paris, 195 países se comprometeram a construir sistemas de saúde resilientes para enfrentar os riscos climáticos. Porém, apenas 28 países apresentaram planos específicos para adaptação na saúde, segundo dados da UNFCCC.
Financiamento e implementação do plano
Para que o plano se traduza em ações concretas, o financiamento é essencial. A delegação de Tuvalu, país vulnerável à elevação do nível do mar, destacou a urgência de ampliar recursos para adaptação, que atualmente recebem menos investimento do que as medidas de mitigação. Uma coalizão global de 35 fundações filantrópicas anunciou a doação de US$ 300 milhões para apoiar projetos do plano, um valor ainda modesto diante da necessidade estimada em US$ 310 bilhões anuais até 2035.
Além do investimento, a comunicação clara e humanizada sobre os riscos climáticos é crucial para preparar a população, especialmente diante de emergências que exigem respostas rápidas, como eventos extremos e evacuações.
Riscos de falhas na articulação e exclusão social
Brenda Kauanne, do movimento Médicos pelo Clima, alerta para o risco de os ministérios da saúde atuarem isoladamente, sem integrar outras áreas e políticas públicas. Essa falta de articulação pode comprometer a eficácia das ações e desconsiderar os determinantes sociais da saúde, como renda, moradia e saneamento básico, que influenciam diretamente a vulnerabilidade das comunidades.
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Outro ponto delicado é garantir o acesso igualitário às inovações tecnológicas e aos sistemas de monitoramento que podem surgir com o plano. Sergio Sosa-Estani, da iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi), reforça que as populações mais vulneráveis devem ser prioridade para evitar o aprofundamento das desigualdades existentes.
O impacto do Plano de Ação em Saúde de Belém no SUS
O plano representa um avanço significativo na agenda climática da saúde pública, oferecendo um caminho para que o Sistema Único de Saúde (SUS) se prepare para desafios que já afetam muitas regiões do país. A adaptação dos serviços e a capacitação das equipes são passos fundamentais para garantir um atendimento eficaz diante das mudanças ambientais.
Para quem depende do SUS, isso significa maior proteção frente aos impactos do clima. Para os profissionais, exige atualização constante e integração com outras áreas. No âmbito institucional, reforça a necessidade de articulação intersetorial e de financiamento adequado para que a saúde pública responda com eficiência às transformações impostas pela crise climática.
Mais que um documento técnico, o Plano de Ação em Saúde de Belém convida o Brasil e o mundo a repensar as estratégias de cuidado e prevenção em um cenário onde saúde e meio ambiente estão profundamente conectados.
