Espetáculo traz reflexões sobre colonização e meio ambiente na Amazônia
Imagine estar no território onde nasceu e vive e, de repente, ver a chegada de seres diferentes do seu povo que prendem, escravizam ou matam muitos dos seus amigos e familiares. Esse território passa a ser dominado por esses invasores, que só pensam no crescimento econômico, mesmo que isso signifique subjugar sua própria gente e marginalizar quem não se encaixa nesse modelo de produção, que ignora o respeito ao meio ambiente. Mas, apesar disso, você e seu povo ancestral não se calam e afirmam que a humanidade depende da natureza.
É com esse chamado pela vida que chega a Belém o espetáculo “Ideias para adiar o fim do mundo”, inspirado na obra do escritor e líder indígena Ailton Krenak. A peça será apresentada na Caixa Cultural Belém nos dias 17, 18, 20 e 21 de junho.
Temporada em Belém destaca encontro entre saberes indígenas e desafios ambientais
Além das apresentações teatrais, a temporada inclui a atividade gratuita “Histórias para adiar o fim”, um encontro entre o ator indígena Yumo Apurinã e a escritora, poeta, geógrafa e ativista indígena Márcia Kambeba, marcado para 20 de junho, às 16h. Realizar esse espetáculo em Belém, no coração da Amazônia, ganha um significado especial, pois a região abriga a maior floresta tropical e a maior bacia hidrográfica do planeta. Esses fatores trazem desafios complexos, como preservar culturas ancestrais, manter as condições ambientais do bioma, explorar os recursos naturais de forma sustentável e combater a pobreza, especialmente entre povos ribeirinhos, indígenas e quilombolas.
Protagonismo indígena e diálogo sobre a formação do Brasil
O ator indígena Yumo Apurinã protagoniza “Ideias para adiar o fim do mundo”, levando ao teatro reflexões sobre humanidade e Brasil presentes no trabalho de Krenak. A peça aborda a formação do país, os impactos da colonização e os desafios enfrentados pelos povos indígenas, propondo diferentes formas de entender a relação entre humanidade e natureza.
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Idealizado pelo diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira, o espetáculo nasceu do desejo de transformar as reflexões de Krenak em linguagem cênica. A construção dramatúrgica se deu em parceria com Yumo, que trouxe sua experiência pessoal para a montagem.
Amazônia como palco para ampliar narrativas históricas e culturais
Para João Bernardo Caldeira, apresentar o espetáculo na Amazônia tem um significado especial. “Muitas questões do livro de Krenak atravessam diretamente este território. Ao colocar diferentes cosmologias em diálogo, a peça convida o público a reflorestar os imaginários com que pensamos o Brasil, abrindo espaço para outras narrativas sobre a nossa história e possibilidades de futuro”, afirma o diretor.
Yumo Apurinã e a reconstrução da ancestralidade
Um aspecto marcante da peça é que Yumo interpreta a si próprio, um homem do povo Apurinã que, evangelizado na infância, busca resgatar sua ligação com a ancestralidade. Nascido em Rondônia e residente na região Sudeste, ele carrega no palco as experiências de deslocamentos entre diferentes mundos e os estereótipos enfrentados pelos indígenas no Brasil atual.
Yumo destaca: “Sou constantemente colocado à prova. Meu corpo não corresponde ao ‘índio’ do imaginário da cidade, mas também não me encaixo em outras classificações. Ainda assim, sei quem sou: um Pupỹkary Apurinã. O pertencimento é o que me orienta. Sei de onde vim, onde estou e penso meu futuro a partir disso”.
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Reflexão sobre história, identidade e futuro do Brasil
O espetáculo convida o público a refletir sobre os processos históricos que moldaram o Brasil e determinaram quais vidas, saberes e modos de existir seriam reconhecidos como parte da humanidade. Segundo Caldeira, “a montagem sugere que talvez seja impossível imaginar futuros diferentes sem antes reelaborar as histórias que contamos sobre nós mesmos”. Ao dialogar com perspectivas marginalizadas pela colonização, a peça amplia os imaginários sobre o país.
A produção também recupera episódios da história brasileira e mostra como eles ainda influenciam o presente. Até a Constituição de 1988, os povos indígenas eram tutelados pelo Estado e considerados incapazes perante a lei. “Muitos mundos precisaram ser silenciados para que uma única narrativa sobre o Brasil se tornasse dominante”, destaca o diretor. Nesse contexto, a crise ambiental é vista como uma crise de imaginação, que exige “reflorestar os imaginários” para abrir espaço a outras narrativas sobre os brasileiros e seus futuros.
Ailton Krenak e o questionamento da humanidade única
No livro homônimo, Krenak afirma: “A ideia de que os brancos europeus podiam colonizar o mundo estava baseada na premissa de uma humanidade esclarecida que precisava iluminar a humanidade obscurecida”. Ele ressalta que essa visão guiou muitas decisões históricas e que, no século XXI, colaborações entre pensadores de culturas distintas possibilitam uma crítica a essa ideia. “Somos mesmo uma humanidade?” é a pergunta que desafia a concepção dominante.
Serviço: Espetáculo na Caixa Cultural Belém
Espetáculo: “Ideias para adiar o fim do mundo”
Local: Caixa Cultural Belém – Avenida Marechal Hermes, S/N – Armazém 6A – Reduto (Porto Futuro II)
Datas: 17, 18, 20 e 21 de junho de 2026
Horários: quarta, quinta, sábado e domingo, às 19h; domingo, sessão extra às 16h
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Vendas: site da Caixa Cultural e bilheteria física, das 11h às 19h
Classificação indicativa: 12 anos
Observação: Não haverá sessão em 19 de junho devido ao jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.
