Secas extremas preocupam e isolam comunidades na Amazônia
As secas que atingiram a Amazônia em 2023 e 2024 deixaram comunidades isoladas, afetando o abastecimento de alimentos e medicamentos. Esse quadro, já grave, corre o risco de se repetir — e com maior intensidade — devido à chegada de um El Niño classificado como muito forte. O fenômeno climático não afeta apenas a região, mas tem alcance global, e será um dos temas centrais da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada a partir do dia 17 na Mongólia.
Frequência e duração das secas aumentam no mundo
Conforme dados da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), a frequência e a duração das secas aumentaram quase 30% no planeta desde o ano 2000. A secretária executiva da UNCCD destaca que o desafio não é mais reconhecer a seca como um risco global, mas agir com rapidez para evitar que seus efeitos se espalhem pelas comunidades, economias e fronteiras.
No Brasil, julho de 2026 registrou seca em todas as cinco regiões do país. Ao todo, 157 municípios foram classificados em situação de seca severa — caracterizada pela queda acentuada de umidade no solo e estresse hídrico na vegetação, prejudicando a agricultura. O Monitor de Secas, mantido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), e os boletins do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) acompanham esse cenário.
O coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden, José Antonio Marengo, aponta que a tendência é de aumento do ressecamento em todo o país, com redução das chuvas e elevação das temperaturas. Isso pode agravar ainda mais as secas nos próximos meses, devido ao desequilíbrio entre precipitação e evaporação.
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Desertificação avança e atinge áreas indígenas
Relatórios da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) indicam que cerca de 18% do território brasileiro está suscetível à desertificação — processo de degradação do solo que compromete a capacidade de reter água, frequentemente causado por desmatamento e uso inadequado da terra. Entre 2000 e 2020, a área afetada cresceu 170 mil km², equivalente à soma dos estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.
Líderes indígenas reforçam a gravidade da situação, apontando para um colapso ambiental que impacta diretamente o modo de vida das comunidades. Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), descreve como a seca faz os rios secarem, os peixes desaparecerem e dificulta o transporte, enquanto a floresta úmida se torna vulnerável às queimadas.
O monitoramento recente mostra que o número de territórios indígenas em situação de seca severa passou de três em junho para 17 em julho, incluindo áreas dos Kaiapó, no Pará. Assentamentos rurais em seca extrema subiram de dois para 44, e em seca severa, de 102 para 309. O Pará, junto de Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas, concentra grande parte das áreas afetadas.
El Niño deve agravar impactos climáticos no Brasil
O fenômeno El Niño, cuja chegada é esperada para os próximos meses, tende a intensificar a redução das chuvas e elevar as temperaturas principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Humberto Barbosa, pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, explica que isso aumenta a vulnerabilidade a secas prolongadas, secas-relâmpago e queimadas, afetando a umidade do solo e a vazão dos rios.
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O Programa Mundial de Alimentos (PMA) projeta que os efeitos climáticos ligados ao El Niño podem aumentar o número de pessoas em insegurança alimentar aguda de 225 milhões para 275 milhões em 45 países, com América Central, América do Sul e Caribe entre as regiões mais afetadas.
Brasil reforça atuação integrada contra a seca
Desde 2024, o Brasil participa da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), criada durante a COP27 do Clima para promover cooperação e investimentos no combate à seca. Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente, destaca que dados dos últimos 30 anos mostram a ocorrência de secas severas em todas as cinco macrorregiões do país. Por isso, o enfrentamento deve ser integrado, abrangendo todas as regiões afetadas.
O desafio agora é preparar as comunidades e as políticas públicas para lidar com secas cada vez mais frequentes e intensas, que afetam diretamente a vida de milhões de brasileiros e a sustentabilidade dos ecossistemas nacionais.
