Queda na Preocupação Climática
A crescente consciência sobre as mudanças climáticas parece estar perdendo força, tanto no Brasil quanto em outros países. Apesar disso, os brasileiros continuam entre os mais preocupados: 71% acreditam que é necessário agir imediatamente. Este dado, embora elevado, representa uma queda em comparação a 2021, quando 77% compartilhavam da mesma opinião.
As informações vêm da pesquisa global “People and Climate Change”, realizada pela Ipsos em 31 países, entre 23 de janeiro e 6 de fevereiro de 2026. O estudo examina percepções, atitudes e comportamentos da população em relação à crise climática e aponta uma tendência clara: a responsabilidade individual, embora ainda presente, não é mais a prioridade central.
A diminuição desse impulso não é um fenômeno isolado do Brasil. Em todas as nações pesquisadas, houve uma redução na percepção de urgência entre 2021 e 2026. A Polônia, por exemplo, viu uma queda marcante de 29 pontos percentuais. No panorama global, 61% ainda concordam que a ação imediata é essencial para combater as mudanças climáticas.
Desafios em um Contexto Alarmante
Essa mudança de percepção ocorre em um cenário preocupante. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, sendo 2024 o ano mais quente até o momento, seguido de 2023, segundo os dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, e da Berkeley Earth, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos com sede na Califórnia.
De acordo com a pesquisa, a cobrança por ação não é sinônimo de indiferença. Especialistas alertam que há uma mudança de perspectiva. Em 28 dos 31 países analisados, a maioria dos entrevistados acredita que os indivíduos devem se comprometer mais, ao passo que cresce a expectativa de que governos e empresas assumam um papel ativo nessa luta.
No Brasil, essa exigência é evidente: 71% afirmam que o país precisa intensificar os esforços contra as mudanças climáticas, número que supera a média global de 59%. Diego Pagura, CEO da Ipsos Brasil, destaca que essa transformação reflete uma nova forma de perceber a responsabilidade coletiva, que se fortalece no sentido de cobrar ações de empresas e governos.
“O que estamos observando é uma mudança de mindset. A responsabilidade compartilhada está se tornando mais clara, com uma expectativa maior direcionada a líderes corporativos e governamentais”, explica Pagura.
O Paradoxo da Urgência
Um dos paradoxos destacados pela pesquisa é que, embora o clima seja considerado um problema grave, ele não é visto como urgente no dia a dia. Questões imediatas, como o custo de vida e a segurança, dominam as preocupações cotidianas. “Embora o clima seja uma questão urgente, ele não é uma prioridade para a maioria. As pessoas tendem a se concentrar em problemas que afetam diretamente suas vidas”, analisa Pagura.
Esse fator contribui para a limitação na adoção de práticas sustentáveis. Apesar da conscientização crescente, a mudança de hábitos enfrenta barreiras como custos, falta de informação e conveniência.
A Questão Energética em Foco
A questão energética emerge como um dos pontos mais críticos. Existe um dilema entre custo, segurança energética e sustentabilidade. Mesmo que a pesquisa tenha sido conduzida antes de conflitos recentes entre Estados Unidos, Israel e Irã, a preocupação com a energia já era evidente: 74% dos entrevistados expressaram receio com o aumento dos preços da energia, e 63% temem a dependência de fontes externas.
Além disso, 55% estão dispostos a aceitar pagar mais pela energia se isso garantir independência energética, enquanto metade prioriza a manutenção de preços baixos, mesmo que isso signifique uma maior emissão de carbono.
O presidente da COP-30, realizada em Belém (PA) no final do ano passado, André Corrêa do Lago, reconheceu que a guerra e sua repercussão nos preços do petróleo intensificaram o debate sobre a transição energética global. Durante uma recente entrevista nas reuniões do Banco Mundial, ele destacou a crescente preocupação com a segurança energética.
Confiança em Xeque
A expectativa em relação aos governos é alta, mas a confiança não acompanha essa demanda. Mais pessoas acreditam que seus governos carecem de um plano claro para lidar com a crise climática (32%) do que aqueles que consideram que há um plano efetivo (30%). Essa lacuna entre capacidade e credibilidade constitui um obstáculo para progressos mais significativos.
Embora o Brasil tenha sido sede da última COP, apenas 34% dos entrevistados o veem como um líder no combate às mudanças climáticas, com 31% discordando. Essa percepção é reforçada pela pesquisa, que revela que 71% acreditam que o país deve se esforçar mais nesse sentido.
Pagura ressalta que três fatores podem estar limitando a percepção de liderança do Brasil: a falta de clareza sobre planos concretos, a desconexão entre a agenda local e a global, e a alta expectativa não atendida. “Embora o Brasil tenha se posicionado no debate global ao sediar a COP-30, a percepção interna depende de ações concretas, comunicação clara e resultados efetivos”, conclui.
