Desafios na Gestão Financeira dos Pequenos Negócios
A pesquisa “Hábitos Financeiros dos Pequenos Negócios”, realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), revelou que impressionantes 61% dos empreendedores ainda utilizam suas contas pessoais para cobrir despesas de suas empresas. Esse percentual é praticamente o mesmo observado em 2023, que foi de 60%. Essa realidade demonstra que a prática de separar as finanças pessoais das empresariais ainda não é uma norma consolidada entre muitos negócios brasileiros.
Especialistas apontam que essa falta de separação, especialmente no setor de alimentação fora do lar, compromete a visibilidade sobre o desempenho financeiro dos empreendimentos. Além disso, dificulta a compreensão do fluxo de caixa e prejudica a precisão nas decisões gerenciais. A pesquisa indica que a confusão entre contas pode estar relacionada à informalidade na gestão dos negócios.
Luiz Henrique Amaral, advogado e consultor jurídico da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), ressaltou que essa ausência de organização pode gerar reflexos contábeis pesados. Segundo ele, quando um empreendedor utiliza sua conta pessoal para cobrir despesas da empresa, os lançamentos financeiros tornam-se imprecisos, o que dificulta a elaboração de demonstrativos confiáveis. Essa falta de clareza prejudica o planejamento tributário, diminui a regularidade fiscal do negócio e pode impactar o acesso a crédito, uma vez que as instituições financeiras precisam de um histórico sólido para avaliar riscos e capacidade de pagamento.
A Persistência da Prática e Seus Efeitos
Os dados do Sebrae mostram que, apesar das variações regionais, essa prática de misturar finanças é comum em todo o Brasil, afetando diretamente a organização e a sustentabilidade dos pequenos negócios. Amaral destacou que ações como pagar fornecedores utilizando Pix pessoal, usar cartão de crédito pessoal para compras de insumos, ou até mesmo depositar pagamentos de clientes nas contas pessoais dos sócios são práticas recorrentes. Muitas vezes, essas decisões são justificadas pela urgência ou pela facilidade do dia a dia, mas podem acarretar sérios problemas.
“Esses movimentos ficam invisíveis para a contabilidade da empresa. Despesas reais não são registradas, o custo real da operação acaba sendo subavaliado, e a apuração de impostos pode ser feita sobre uma base distorcida”, explicou Amaral.
A pesquisa ainda revela que cinco em cada dez pequenos empreendedores têm um controle financeiro considerado deficiente. Apenas 30% deles utilizam planilhas para gerenciar suas finanças, 25% recorrem a anotações em cadernos, 20% utilizam aplicativos, 13% delegam totalmente a responsabilidade ao contador e 10% não possuem qualquer forma de controle financeiro.
Diferenciação Regional no Controle Financeiro
As disparidades regionais reforçam esse cenário já preocupante. As regiões Sudeste e Sul se destacam pelo uso de planilhas, enquanto Norte e Nordeste têm uma maior tendência ao uso de cadernos. Nos extremos, estados como Santa Catarina demonstram uma maior adesão a ferramentas digitais, enquanto o Mato Grosso apresenta o maior número de empreendedores sem nenhum tipo de controle.
Amaral finaliza destacando que a separação das finanças pessoais das empresariais é fundamental para garantir clareza nas movimentações financeiras, segurança jurídica e organização no acompanhamento do desempenho. Para bares e restaurantes, que operam com custos variáveis e margens apertadas, essa distinção é crucial para fortalecer a gestão e reduzir os riscos que podem comprometer a continuidade do negócio. O especialista conclui: “Manter as finanças bem organizadas é um passo essencial para a saúde financeira de qualquer pequeno empreendimento, evitando surpresas desagradáveis no futuro”.
