Estudo Inovador nas Escolas do Pará
Uma pesquisa inovadora está sendo realizada pela Universidade Federal do Pará (UFPA) com o intuito de facilitar o diagnóstico precoce de transtornos como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC). O estudo, desenvolvido pelo Laboratório de Inteligência Artificial aplicada a Cidades Inteligentes (LabCity), já está em prática nas escolas municipais de Canaã dos Carajás, utilizando técnicas de visão computacional. A pesquisa, aprovada pelo Comitê de Ética da UFPA, conta com a autorização das famílias das crianças envolvidas, além do apoio da Secretaria Municipal de Educação.
O coordenador do projeto, professor Renato Francês, do INCT IAmazônia, explica que essa iniciativa teve início a partir de uma colaboração com aproximadamente 40 universidades, incluindo a renomada Universidade de São Paulo (USP). Há cinco anos, a USP lançou o desafio de utilizar a análise de sentimentos, um ramo da inteligência artificial que se concentra no reconhecimento de emoções por meio da expressão facial, o que levou à aplicação dessa abordagem no ambiente escolar.
A pesquisa foca em identificar reações emocionais em crianças da primeira infância, especialmente nos primeiros anos do ensino fundamental, considerando que transtornos como o TEA, TDAH e TPAC frequentemente revelam respostas emocionais reduzidas ou neutras a estímulos que normalmente provocariam alegria ou tristeza. Dessa forma, a equipe decidiu observar essas respostas em um ambiente escolar real.
Coleta de Dados e Análise de Resultados
Com um rigoroso método de coleta de dados, foram selecionadas três escolas e duas séries didáticas de cada uma em Canaã dos Carajás. O objetivo é criar uma série histórica ao longo do período letivo, permitindo uma análise mais precisa. Professor Renato ressalta que uma análise única poderia capturar a criança em um dia atípico, influenciando os resultados. Assim, a equipe busca reunir dados ao longo de um semestre ou ano letivo, descartando situações que não representem o normal.
Os especialistas analisam os dados coletados e definem uma linha de corte para identificar alunos que não reagiram a mais de 50% dos estímulos apresentados. Até o momento, cerca de 200 crianças foram avaliadas, e os resultados ainda estão em processamento. “Este método não substitui médicos ou terapeutas ocupacionais, mas serve como uma ferramenta para reunir evidências que auxiliem na construção de pré-diagnósticos”, complementa Renato.
Funcionamento da Pesquisa
Durante a aplicação da pesquisa, o professor utiliza um tablet com um sistema específico, que gera uma série aleatória de eventos com diferentes dias, horários e professores. As reações dos alunos são registradas por câmeras posicionadas em sala de aula, que capturam vídeos e enviam os dados para um sistema online. A inteligência artificial então analisa e classifica as emoções registradas durante as atividades.
“Analisamos individualmente a reação de cada aluno, observando quantas vezes não reagiram aos estímulos. Buscamos identificar uma ausência de reação, que pode ser um sinal de atenção. Caso uma criança demonstre uma neutralidade recorrente a diversos estímulos, ela passa a ser monitorada mais de perto pelos especialistas”, acrescenta Renato.
Importância do Diagnóstico Precoce
O professor enfatiza que, no Sistema Único de Saúde (SUS), o diagnóstico de condições como o autismo pode levar até três anos, o que varia de acordo com a gravidade do caso. O diagnóstico tardio pode impactar significativamente a aprendizagem das crianças. “Detectar e diagnosticar precocemente é crucial, pois, nos casos de maior comprometimento, esse tempo pode ser irrecuperável em termos educacionais. A ideia é observar na escola, especialmente nos primeiros anos da educação fundamental”, destaca.
Equipe Multidisciplinar e Colaboração
O projeto conta com uma equipe diversificada, que inclui pesquisadores e estudantes de graduação, mestrado e doutorado. Além da UFPA, outras instituições como a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e o Instituto Federal do Pará (IFPA) colaboram. A pesquisa é apoiada por profissionais das prefeituras, que treinam os professores para aplicar os estímulos e auxiliam na interpretação dos dados.
Carlos Teixeira, engenheiro de telecomunicações e pós-doutorando em IA, explica que a tecnologia de captação de dados é acionada apenas durante os experimentos, garantindo que as reações dos alunos sejam registradas de maneira adequada. Gabriel Xavier, pesquisador de Iniciação Científica, afirma que a colaboração entre professores e técnicos é essencial para o sucesso dos experimentos e para a interpretação dos resultados.
Com essa pesquisa, a UFPA busca não apenas identificar transtornos precocemente, mas também contribuir para a implementação de políticas públicas que melhorem a qualidade de vida de pessoas com TEA. Renato conclui que, caso o projeto se mostre eficaz, ele poderá ser adotado por órgãos como o SUS e o MEC, impactando positivamente a saúde e a educação em todo o país.
