Es Devlin: Criadora de Experiências Monumentais
A artista britânica Es Devlin se destaca por seu trabalho singular, que é difícil de ser encapsulado em palavras. Com um talento raro, ela projeta esculturas gigantes e estruturas tecnológicas que se adaptam a diversos ambientes, seja em museus ou grandes estádios.
Seu portfólio inclui inovações memoráveis, como os telões cúbicos utilizados por Beyoncé na ‘Formation Tour’ e o impressionante palco da ‘Renaissance Tour’. Além disso, ela também foi a mente criativa por trás do palco do U2 na turnê ‘Innocence + Experience’ e do grandioso show de Lady Gaga em Copacabana, que se consagrou como um dos maiores eventos da música mundial.
Devlin reflete sobre sua abordagem ao criar: “Alguém vive um momento que se transforma em música, e as pessoas sentem essa conexão ao comprar um ingresso para o show. Minha missão é manter essa intimidade, mesmo em uma escala monumental. Não me preocupo em como a performance ficará nas câmeras, mas em como o público se sentirá”.
Entre as turnês de grandes artistas como U2, Beyoncé e The Weeknd, Devlin também se aventurou em diferentes projetos, incluindo desfiles de moda e peças de teatro. Recentemente, ela tem se concentrado em seu trabalho autoral, como a exposição ‘Sou o Outro do Outro’, que está em cartaz na Casa Bradesco, em São Paulo, desde 15 de março. A mostra apresenta obras interativas que exploram espelhos, sons e imagens, incentivando o público a participar ativamente — seja levando um fragmento da instalação ou desenhando em um longo papel em branco.
O trabalho de Devlin abrange não apenas idéias inovadoras, mas também conhecimento em engenharia, arquitetura e tecnologia, elementos indispensáveis para executar suas criações. “Trabalhamos no limite do possível. Existe o impossível, que não podemos realizar devido à natureza física das obras que criamos, e há o possível, que não queremos fazer porque já foi feito”, explica.
O Caminho para a Criação
Em entrevista ao G1, Devlin compartilha um pouco sobre sua trajetória e os desafios de seu trabalho. “Sou uma artista de Londres. Nos últimos dez anos, minha prática se concentrou na criação de instalações em importantes museus, como a Tate Modern e o Imperial War Museum, além de eventos como as cerimônias olímpicas e shows do intervalo do Super Bowl”. Ela destaca a amplitude de sua atuação, que transita entre artes visuais, música e performances ao vivo.
Questionada sobre como alguém pode seguir um caminho como o dela, Devlin responde: “É uma questão de presença. Quando criança, eu me envolvia com música e desenhos, mas meus professores simplesmente desistiram de mim, dizendo que eu nunca seria nada porque não queria me especializar em uma única área”. Ela menciona o ditado ‘jack of all trades’, ressaltando que esse foi o caminho que escolheu, abraçando um espaço rico e multifacetado.
Interação e Experiência do Público
Sobre a diferença entre criar cenários para grandes shows e experiências mais intimistas, ela argumenta: “O documentário ‘Spirits in the Forest’, do Anton Corbijn, sobre o Depeche Mode, ilustra como a música se transforma na vida dos fãs. A música não pertence mais à banda, mas ao público. Multiplicando essa conexão por dezenas de milhares de pessoas, temos uma experiência coletiva coautoriada por cada um deles”.
Devlin menciona que o processo de criação é sempre um convite para explorar um terreno comum, onde busca entender a cultura local e as especificidades do ambiente em que está trabalhando. “Quando sou convidada para uma nova comissão, pesquiso e aprendo sobre a linguagem do lugar. Procuro o que temos em comum, como um diagrama de Venn”. Dessa forma, ela consegue encontrar um ponto de conexão com a sua própria experiência, seja em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer outro lugar do mundo.
O Tempo e o Processo Criativo
Sobre o tempo necessário para realizar um projeto, Es Devlin afirma que isso pode variar bastante. Comenta que a preparação para a produção da ópera ‘Tristan & Isolde’, na Met Opera, começou há quatro anos, enquanto a ideia para a sua atual exposição levou cerca de 18 meses para ser concretizada. Por outro lado, a turnê de Lady Gaga para o Coachella teve um período de planejamento muito mais curto, com apenas dois meses entre a chamada e a abertura do evento.
Perguntada sobre a adaptação de suas obras para o Brasil, Devlin afirma que o palco usado em Copacabana foi o mesmo da turnê anterior, e não houve necessidade de mudanças. Contudo, a artista reflete sobre como a tecnologia, especialmente os celulares, influenciam a forma como as pessoas interagem durante os shows. “No passado, as pessoas acendiam isqueiros; hoje, vemos uma tela de celular em cada mãos. Precisamos nos perguntar: o que queremos registrar e por quê?”.
No final, Es Devlin reafirma que seu foco continua a ser a comunicação da intimidade por meio de suas obras, transmitindo verdades pessoais tanto em uma exposição quanto em um espetáculo monumental. “Estou sempre interessada em como capturar a essência do que tentamos comunicar e como isso ressoa com as pessoas”.
