Inovação no Atendimento à Saúde
Pesquisadores da Universidade de Pernambuco (UPE) estão à frente de uma iniciativa inovadora que pode transformar a maneira como os exames para hanseníase são realizados. Eles desenvolveram um aplicativo denominado Avaliação Neurológica Simplificada Digital (ANSd), que tem como objetivo substituir o tradicional registro em papel. A nova ferramenta foi criada após a identificação da necessidade de modernizar os processos hospitalares, proporcionando uma abordagem mais ágil e eficaz nas avaliações dos pacientes.
Os testes iniciais do ANSd estão programados para iniciar em abril no Hospital Otávio de Freitas, localizado em Tejipió, na Zona Oeste do Recife. Reconhecido como um centro de referência no tratamento da hanseníase, este hospital será o primeiro a adotar a nova tecnologia, o que pode impactar significativamente na qualidade do atendimento aos pacientes.
Fundamentação Científica e Necessidade da Inovação
O desenvolvimento do aplicativo é um resultado do projeto hansen.ai, que conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. A coordenadora do projeto, Patricia Endo, doutora em Ciência da Computação, destaca que a ideia surgiu após uma visita ao hospital em 2023, onde constatou-se a precariedade dos registros em papel.
“A realidade do hospital era de todos os dados dos pacientes estarem em papel, guardados em caixas. É um cenário completamente analógico. Compreendemos a importância de ter esses dados armazenados e coletados digitalmente”, explicou Patricia. Essa mudança não apenas visa a modernização, mas também busca aumentar a segurança e a precisão na coleta de informações.
Benefícios Diretos aos Pacientes
Os pacientes com hanseníase precisam passar por uma avaliação de sensibilidade neurológica, que envolve estímulos na pele para verificar a percepção de tato, dor e temperatura. Normalmente, as reações são anotadas manualmente, o que pode levar a erros de interpretação e deterioração dos registros. Com a implementação do ANSd, as informações serão coletadas digitalmente, garantindo mais qualidade e confiabilidade nos dados.
O aplicativo segue o modelo de avaliação estabelecido pelo Ministério da Saúde, o que facilitará a adaptação dos profissionais que estão acostumados a trabalhar com registros em papel. “Eles poderão realizar esse procedimento de forma mais eficiente, com mais qualidade e em menos tempo”, afirma a pesquisadora.
Desafios e Oportunidades no SUS
A professora Danielle Moura, especialista em hanseníase e parte da equipe de pesquisa, enfatiza que o aplicativo responde a uma necessidade urgente do Sistema Único de Saúde (SUS). “O aplicativo vem solucionar uma demanda histórica e crítica, que é a sistematização e a qualificação da avaliação neurológica de pacientes com hanseníase em todas as unidades da rede SUS”, ressalta.
Com a introdução do ANSd, espera-se também reduzir a perda de informações e minimizar as dificuldades na análise de dados em nível populacional. A precisão no preenchimento das informações pode, no futuro, contribuir para a identificação precoce de alterações nos pacientes, melhorando os resultados de saúde.
Contexto da Hanseníase no Brasil
A hanseníase, doença crônica provocada pela bactéria Mycobacterium leprae, é um desafio contínuo no Brasil. Ela afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo resultar em incapacidades permanentes. Segundo o Boletim Epidemiológico de 2026 do Ministério da Saúde, foram registrados 22.129 novos casos da doença em 2024, com 36,5% dos pacientes apresentando algum grau de incapacidade física.
Em Pernambuco, dados recentes mostram que, ao longo da última década, 19.831 casos novos foram notificados. No último ano, 1.699 novos casos foram identificados, indicando a necessidade urgente de estratégias eficazes para o diagnóstico e tratamento precoce.
Futuro do Projeto e Interatividade com Inteligência Artificial
O projeto hansen.ai, além da UPE, conta com a colaboração do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Com uma equipe de 23 pesquisadores, entre docentes e alunos, a expectativa é que o projeto avance até o final de 2026, incluindo o desenvolvimento de novas ferramentas e dispositivos. O professor Hilson Vilar, do IFPE, está desenvolvendo um modelo preditivo com inteligência artificial para analisar a evolução dos pacientes.
“A intenção é usar os dados coletados pelo aplicativo para prever a evolução dos pacientes. Identificando aqueles com maior risco de piora, poderemos proporcionar um atendimento diferenciado que pode evitar sequelas permanentes”, explicou o professor.
Apesar dos avanços, o projeto enfrenta desafios, incluindo questões burocráticas que atrasam a implementação no hospital. A coordenadora Patricia Endo destaca a importância de superar esses obstáculos para levar a tecnologia a um número maior de unidades de saúde em todo o Brasil.
