A Participação Feminina em Orquestras Clássicas
Historicamente, o mundo da música clássica tem sido dominado por homens. De acordo com dados da League of American Orchestras, menos de 10% das grandes orquestras ao redor do mundo são regidas por mulheres. No entanto, essa realidade está mudando com a ascensão de mulheres na Orquestra Jovem Sesc Brasil, composta por 51 músicos com idades entre 18 e 29 anos, distribuídos por 11 estados.
Uma história que exemplifica essa mudança se inicia em Barcarena, no Pará. Ágatha Nascimento, aos 25 anos, começou sua jornada em um local onde o acesso à música erudita é bastante limitado. Sem conservatórios nas proximidades, sua formação musical começou na igreja em 2013.
Influenciada por sua avó, que admirava o som do violino, Ágatha enfrentou desafios e transformou a internet em sua sala de aula, realizando boa parte de sua formação através de aulas online. Anos depois, ela ingressou no curso de música na Universidade Federal do Pará (UFPA), onde completou um curso técnico e, posteriormente, uma licenciatura na Universidade do Estado do Pará (UEPA), começando a tocar em orquestras sinfônicas.
Triunfos e Desafios na Orquestra do Sesc
O esforço de Ágatha valeu a pena, pois durante um festival de música em Pelotas, ela conquistou a cobiçada vaga de Spalla no Sesc, cargo que ocupa atualmente tanto na Orquestra Jovem do Pará quanto na do Brasil. Neste papel, ela é a segunda no comando da orquestra, responsável por liderar os naipes de cordas e definir as arcadas e dedilhados do instrumento. Para participar dos ensaios, que ocorrem todas as sextas-feiras, Ágatha precisa fazer uma viagem de uma hora de lancha até Belém.
Além de suas duas horas diárias de estudo, a jovem também atua como professora, lecionando artes na educação básica em uma escola particular e dando aulas de violino na igreja onde tudo começou. Ágatha reflete sobre sua experiência: “Este ambiente sempre foi muito dominado por homens. Quando uma mulher assume a liderança e se destaca, ela não está apenas tocando; está criando histórias de inspiração que autorizam outras meninas a sonharem”.
De Curiosidade à Profissionalização Musical
Em Minas Gerais, a jovem instrumentista Fernanda Areal, de 18 anos, também desponta na música. Desde cedo incentivada por seu pai, que toca e canta em casa, ela teve seu primeiro contato com a música aos 13 anos ao ingressar na turma regular do Sesc, inicialmente por curiosidade.
Naquela época, Fernanda era uma criança tímida, mas a música mudou sua vida ao começar a tocar a viola, um instrumento de som mais encorpado que o violino. Após completar um curso de quatro anos, hoje ela faz parte da turma de aprofundamento voltada à profissionalização de músicos. Com planos de ingressar na faculdade de música e, em seguida, cursar musicoterapia, Fernanda treina três vezes por semana na unidade. “Atualmente, meu naipe é quase todo formado por mulheres; só tem um homem”, relata.
Celebrando Mulheres na Música
A representatividade feminina na música clássica não se restringe apenas às instrumentistas. Em Minas Gerais, a orquestra realiza anualmente o ‘Girl Power’, um concerto em homenagem ao Mês das Mulheres, programado para o dia primeiro de abril. Neste evento, a hierarquia tradicional é invertida, com obras escritas, interpretadas e regidas pela maestrina Flávia Campanha.
“Neste ano, teremos apenas mulheres tocando, e uma maestrina regendo. Vamos apresentar músicas como ‘Sweet Dreams’ do Eurythmics e ‘Rolling in the Deep’ da Adele, todas escritas por mulheres”, compartilha Maria Fernanda.
No Pará, essa iniciativa ganha um sabor regional ao incluir gêneros tradicionais como brega e carimbó em suas apresentações. Entre as músicas que serão tocadas no próximo evento estão ‘Um poema de amor’ do paraense Wilson Fonseca, ‘Ao pôr do sol’ e ‘Boi bumbá’, revela Ágatha.
