Tensões no Oriente Médio Podem Afetar o Brasil
Menos de 48 horas após o início dos bombardeios, a ofensiva militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã começa a se expandir para outros países do Oriente Médio, despertando preocupações globais.
A comunidade internacional observa com apreensão a possibilidade de uma guerra regional em uma área vital para o fornecimento de petróleo. Neste cenário conturbado, previsões sobre um possível choque energético global tornam-se cada vez mais complexas.
Por outro lado, a situação do gás natural apresenta uma dinâmica distinta. A recente invasão da Ucrânia ainda está fresca na memória coletiva, onde a interrupção do fornecimento do gás russo para a Europa resultou em inflação, aumento das taxas de juros e uma crise econômica que continua a afetar o continente.
Os efeitos dessa crise também chegaram ao Brasil, e o país pode enfrentar um cenário semelhante. O Brasil depende do gás natural liquefeito (GNL) para operar suas usinas térmicas, que são acionadas quando as hidrelétricas não conseguem suprir a demanda energética.
Embora o gás utilizado pelo Brasil não venha diretamente do Golfo Pérsico, seu valor é influenciado pelo mercado internacional, sobretudo em momentos de intensa concorrência por carregamentos.
Impactos Imediatos no Mercado de Gás
Nesta segunda-feira (2), o preço do barril de petróleo subiu 9%, enquanto o gás natural teve um aumento de 39% no mercado europeu e 41% no asiático. Um dos fatores que impulsionaram essa alta foi um ataque de drones iranianos que forçou a QatarEnergy, a maior produtora de GNL do mundo, a interromper sua produção.
Além disso, o Irã bloqueou o tráfego no estreito de Ormuz, que transporta cerca de 20% do gás mundial em navios. Esse bloqueio gera preocupações em relação a um possível desabastecimento global.
Embora o conflito europeu tenha inicialmente causado um impacto mais significativo nos preços, a possibilidade de um conflito prolongado no Oriente Médio e as características particulares do comércio global de gás despertam inquietações entre especialistas.
Possíveis Consequências Econômicas
Estima-se que cerca de 80% do gás liquefeito produzido no Golfo seja destinado ao mercado asiático, enquanto o restante vai para a Europa. Uma interrupção prolongada no fornecimento poderia desencadear uma reação em cadeia, afetando países ao redor do mundo, inclusive o Brasil.
Ademais, aproximadamente 90% do gás consumido globalmente é transportado por gasodutos em distâncias relativamente curtas, com contratos de longo prazo que tornam os preços menos suscetíveis a flutuações abruptas.
Por outro lado, o GNL é comercializado em um mercado livre, o que significa que, ao ser transportado em navios, pode ser direcionado a qualquer lugar do planeta. O preço é definido a cada transação, levando em consideração índices internacionais e custos logísticos.
O Brasil, que historicamente importa a maior parte de seu gás liquefeito dos Estados Unidos, viu seus custos aumentarem significativamente após a guerra na Ucrânia, quando a demanda europeia pelo GNL americano disparou. Isso levou a um encarecimento da conta de energia, especialmente para as usinas térmicas que são as principais consumidoras desse insumo.
Desafios e Alternativas para o Setor Energético
Se o conflito no Oriente Médio se agravar, o Brasil pode reviver uma crise semelhante à vivida quatro anos atrás. O Operador Nacional do Sistema (ONS) já expressou preocupação com a capacidade dos reservatórios de energia, que não estão adequados para o período de seca que se aproxima.
“O impacto será, sem dúvida, na inflação, devido ao aumento do custo da energia elétrica”, afirmou Cassio Cardoso Carvalho, assessor político do Inesc Brasil, um centro de estudos independente.
As guerras são apenas um dos fatores que evidenciam o quanto as variações nos preços dos insumos podem afetar a economia do Brasil. No entanto, essas situações destacam desafios que podem persistir por muito tempo.
No Plano Decenal de Energia, que delineia as diretrizes do setor energético brasileiro entre 2025 e 2034, está prevista a ampliação do uso de termelétricas a gás como uma garantia de “energia firme” para compensar a intermitência das fontes renováveis, como a solar e a eólica.
“Precisamos urgentemente repensar como estruturamos nosso setor elétrico para que possamos depender menos dessa transição”, ponderou Stefania Relva, diretora do Instituto E+ Transição Energética.
Enquanto isso, países como Austrália, China e Estados Unidos têm contornado o problema usando grandes sistemas de baterias, que armazenam eletricidade excedente proveniente de fontes renováveis.
O Potencial do Biometano
O Brasil já tem capacidade para produzir mais gás natural do que precisa, mas uma grande parte desse gás é reinjetada no fundo do mar pela Petrobras. Diariamente, a empresa reinjeta 75 milhões de metros cúbicos do gás extraído, com o objetivo de maximizar o rendimento das jazidas petrolíferas.
Outra alternativa é o biometano, que pode ser produzido a partir de resíduos orgânicos e é idêntico ao gás fósseis, podendo ser utilizado nos mesmos equipamentos e na mesma infraestrutura.
Com um potencial teórico de produção de 120 milhões de metros cúbicos por dia, o biometano poderia atender à demanda nacional, mas ainda enfrenta desafios para se consolidar no mercado.
A indústria nacional, grande consumidora de gás natural, também enfrenta críticas sobre o custo elevado do insumo. Em uma declaração recente, Roberto Muniz, diretor da CNI, destacou que a redução dos preços do gás é crucial para a competitividade da indústria brasileira.
“Estamos discutindo não apenas a competitividade, mas também a sobrevivência da nossa indústria diante do alto custo do gás”, reforçou Muniz.
Em 2024, o preço médio do gás no Brasil foi de US$ 18,96 por milhão de BTU, um valor alarmante em comparação ao preço nos Estados Unidos, que foi de apenas US$ 3,75 por milhão de BTU.
Marcos Mortari, especialista em precificação de gás natural na consultoria Argus, afirma que ainda não é possível prever claramente as consequências de um aumento nos preços do gás, dada a complexidade das estratégias de aquisição de cada agente do mercado.
