Divisão Interna do MDB nas Eleições de 2024
O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) se aproxima das eleições com uma clara divisão sobre o apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Palácio do Planalto. De acordo com um levantamento interno da direção nacional, 16 diretórios estaduais se opõem a um alinhamento com Lula, enquanto 11 grupos defendem uma aproximação. Essa fragmentação levou a sigla a considerar a possibilidade de neutralidade, permitindo que cada estado decida sua posição individualmente, conforme informações do jornal O Globo.
O comando nacional do MDB enfatizou que a principal prioridade do partido neste momento é a montagem dos palanques estaduais. A decisão formal sobre o posicionamento para as eleições presidenciais será tomada apenas durante a convenção nacional, onde estarão presentes parlamentares, presidentes de diretórios e delegados. Nessa instância, estados que tiveram desempenho eleitoral mais significativo nas últimas eleições terão um peso maior nas deliberações.
Historicamente, a última vez que o MDB esteve oficialmente ao lado do PT em uma eleição presidencial foi nas campanhas de Dilma Rousseff, que indicou Michel Temer como seu vice. Mesmo em 2010 e 2014, houve dissidências regionais, com setores do partido apoiando candidatos do PSDB. A ruptura entre MDB e PT se consolidou após o impeachment de Dilma, mas a reaproximação foi gradual, com divisões mais evidentes a partir do segundo turno de 2022.
Estratégias e Perspectivas do Palácio do Planalto
Para ampliar seu apoio, o Palácio do Planalto está avaliando a possibilidade de oferecer ao MDB a indicação para a vice-presidência, atualmente ocupada por Geraldo Alckmin (PSB). No entanto, a leitura interna é de que a neutralidade continua sendo a escolha mais provável. O presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, ressaltou a importância da tradição descentralizada do partido. “Nosso foco é na montagem dos palanques estaduais, respeitando a estratégia eleitoral de cada diretório. Essa é uma característica histórica do MDB”, disse ele, reforçando que “o MDB não tem dono”.
Os diretórios que favorecem o apoio a Lula estão predominantemente nas regiões Norte e Nordeste. No Pará, por exemplo, o governador Helder Barbalho está alinhado com o governo federal. Jader Filho, ministro das Cidades, declarou ao Poder360 que considera “uma questão de coerência” o MDB apoiar o presidente, uma vez que a sigla ocupa ministérios de importância no governo.
Em Alagoas, onde o ministro dos Transportes, Renan Filho, é visto como um potencial candidato ao governo estadual, também há uma tendência favorável ao Planalto. Ele é cogitado para compor uma chapa presidencial como vice, caso o MDB decida formalizar seu apoio a Lula. Outra possibilidade discutida é a de Helder Barbalho como vice.
Apoios Regionais e Resistências
O senador Renan Calheiros revelou que a proposta de aliança partiu do próprio presidente Lula. “Quem falou isso (sobre a vice) foi o Lula, não fomos nós. Ele tratou disso comigo no dia 17 de dezembro, na Granja do Torto”, explicou o parlamentar, ressaltando que seria necessário um convite formal para que a legenda discutisse oficialmente o assunto.
Lula também pode contar com apoio nos quatro estados onde o MDB ocupa as vice-governadorias: Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Contudo, rearranjos regionais indicam que essa configuração pode não se repetir completamente nas próximas eleições.
No maior colégio eleitoral do Brasil, São Paulo, a resistência ao alinhamento com o PT é significativa. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, está avaliando a possibilidade de se filiar ao PSB para disputar o Senado. O prefeito da capital, Ricardo Nunes, que é aliado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem defendido a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência.
No Centro-Oeste, o cenário também não é favorável ao apoio a Lula. Em Goiás, o vice-governador Daniel Vilela é visto como a aposta do MDB para a sucessão estadual, enquanto o atual governador, Ronaldo Caiado (PSD), se posiciona como pré-candidato à presidência. Vilela é categórico ao afirmar que não vê possibilidade de aliança com o PT: “Defendo que o MDB faça parte da construção de uma frente de centro-direita”.
No Sul, a tendência é semelhante. O vice-governador do Rio Grande do Sul, Gabriel Souza, está articulando sua candidatura ao Executivo estadual com apoio do governador Eduardo Leite (PSD), que também demonstra interesse em concorrer à presidência.
Em Minas Gerais, o partido estuda a pré-candidatura do ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Gabriel Azevedo. Outra alternativa em discussão é o presidente da Assembleia Legislativa, Tadeu Leite, nome que tem sido considerado por setores petistas como um possível palanque para Lula no estado.
No Rio de Janeiro, o alinhamento com o PT também não é considerado viável. O ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis, principal figura do partido no estado, é próximo da família Bolsonaro e aguarda uma decisão do Supremo Tribunal Federal que pode afetar sua situação eleitoral, já que encontra-se inelegível devido a uma condenação por crime ambiental.
Desde 2002, quando indicou a vice na chapa de José Serra, o MDB tem alternado entre candidaturas próprias e neutralidade nas eleições presidenciais, tendo dado apoio formal ao PT apenas nas disputas de 2010 e 2014. Esse histórico reafirma a tradição de autonomia regional que volta a marcar o debate interno do partido neste novo ciclo eleitoral.
