Um Ano em Domiciliar: A Vida de Collor em Maceió
O ex-presidente Fernando Affonso Collor de Mello, aos 76 anos, mantém sua eloquência ao receber visitantes em seu apartamento em Maceió (AL), onde cumpre prisão domiciliar desde o dia 1º de maio de 2025. Sempre bem vestido, muitas vezes de terno e gravata, ele demonstra uma tranquilidade aparente, embora reclame do tédio do isolamento. Com poucos amigos e a necessidade de autorização judicial para receber visitas, Collor tem o hábito de presentear aqueles que o visitam.
Collor foi preso em 25 de abril de 2025, sob ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares. Logo após, foi levado à sede da Polícia Federal em Alagoas, sendo posteriormente transferido para o presídio Baldomero Cavalcante, onde sua sala foi adaptada para atender às suas necessidades de saúde. Os advogados do ex-mandatário relataram que Collor lida com várias condições de saúde, incluindo a Doença de Parkinson, apneia do sono grave e transtorno afetivo bipolar. Após seis dias no presídio, Moraes concedeu a ele o benefício da prisão domiciliar.
O Contexto da Condenação e as Implicações Políticas
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A pena a qual Collor foi submetido abre possibilidade para um pedido de progressão ao regime semiaberto em cerca de cinco meses, concluindo assim 17 meses dos 8 anos e 10 meses de condenação. Ele foi condenado por ter aceito propina em um esquema de corrupção relacionado à BR Distribuidora, uma subsidiária da Petrobras, acusação que ele sempre negou. A investigação que levou à sua condenação é um desdobramento da Operação Lava Jato, e as provas incluíram documentos encontrados no escritório do doleiro Alberto Youssef, além de depoimentos de colaboradores da operação.
O caso de Collor foi analisado por muitos como precursor da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que, alguns meses depois, também teve sua prisão domiciliar autorizada, após a solicitação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao ministro Moraes. Assim como Collor, Bolsonaro usa tornozeleira eletrônica e cumpre prisão domiciliar.
Rotina Pacata e Desafios da Relevância Política
Os moradores do prédio onde Collor reside descrevem sua rotina como tranquila, sem grandes mudanças no cotidiano do edifício, que conta com poucos funcionários e portaria remota. O ex-presidente vive com sua esposa, Caroline Serejo Medeiros Collor de Mello, e as filhas mais novas, que ficam no imóvel quando estão no Brasil. Os filhos mais velhos, Arnon, Joaquim e Fernando James, residem em locais diferentes, e James, juntamente com Caroline, está à frente da TV Gazeta, onde ela é sócia e ele atua como administrador.
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Para visitas, Collor não precisa avisar previamente a amigos, advogados ou médicos. Ele reside em uma cobertura de 600 metros quadrados localizada em uma área nobre de Maceió, que possui diversas comodidades, incluindo piscina e várias suítes. Enquanto a decisão do STF sobre sua prisão domiciliar não restringe o uso de telefone ou internet, Collor só pode deixar seu apartamento por motivos de saúde, devendo notificar previamente qualquer emergência. Seu passaporte, no entanto, está suspenso.
Visitantes e Vínculos Políticos
Durante seu primeiro ano de prisão domiciliar, Collor recebeu 24 autorizações de visita, abrangendo 23 pessoas entre setembro e abril, incluindo empresários e figuras políticas, como o deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade-SP). Visitas de figuras como o presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas, Marcelo Victor (MDB), e do ex-ministro Bruno Araújo foram autorizadas. Entre os visitantes, destacam-se também Cláudio Melo Filho, delator da Odebrecht.
Em um contexto mais pessoal, Collor sofreu uma perda significativa com a morte de sua irmã, Leda Maria de Melo Coimbra, em junho. Além disso, enfrentou um incidente em que a tornozeleira eletrônica não funcionou adequadamente, o que gerou preocupação quanto ao retorno à prisão, embora sua defesa tenha argumentado que o problema foi involuntário.
Para a professora de ciência política da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Luciana Santana, a prisão de Collor se deu num cenário de já minguada relevância política, caracterizada por baixa capacidade de articulação e influência em sua terra natal. A professora acredita que a trajetória política do ex-presidente, marcada por tentativas frustradas de retorno ao governo estadual, como sua candidatura em 2022, evidenciou um isolamento político crescente.
Comparações com Bolsonaro e O Futuro Político
Embora existam semelhanças entre as situações de Collor e Bolsonaro no que se refere a prisões domiciliares, Santana destaca que os contextos são distintos. “Bolsonaro, ao contrário de Collor, tem herdeiros políticos e uma base que pode sustentar seu legado”, observa a especialista. A relevância política de Collor, por outro lado, parece se dissipar, refletindo a dificuldade de reconstruir seu capital eleitoral após uma série de derrotas.
