Brasil em Foco na Guerra por Terras-Raras
A recente aquisição da mineradora brasileira Serra Verde pela empresa americana USA Rare Earth coloca o Brasil no centro de um acirrado embate internacional por terras-raras. Anunciada ontem, a compra representa um investimento significativo em um mercado onde a demanda por esses elementos tem crescido exponencialmente. A Serra Verde, única mineradora a produzir terras-raras em escala fora da Ásia, mostra-se cada vez mais estratégica para os Estados Unidos em sua busca por reduzir a dependência da China.
A transação avalia a mineradora em aproximadamente US$ 2,8 bilhões e deverá ser finalizada no terceiro trimestre deste ano. O acordo inclui um pagamento imediato de US$ 300 milhões e a emissão de cerca de 126,8 milhões de ações da USA Rare Earth, que serão transferidas aos atuais controladores da Serra Verde.
Com isso, as investidoras Denham Capital e EMG, além da britânica Vision Blue, se tornarão sócias majoritárias, detendo 34% da nova empresa que será formada a partir da fusão.
Impacto da Transação no Setor
Se aprovado, este negócio não apenas estabelecerá uma nova entidade operando em diversos países, como Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido, mas também cobrindo toda a cadeia produtiva, desde a mineração até a fabricação de ímãs cruciais para setores como tecnologia de ponta, energia renovável e defesa.
A USA Rare Earth, uma companhia privada, conta com respaldo de várias iniciativas federais americanas, incluindo recentemente um aporte de US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio dos EUA, visando fortalecer sua presença no mercado de terras-raras.
Embora a empresa possua um depósito mineral no Texas, esse local ainda não se encontra em operação comercial. Segundo o Financial Times, a USA Rare Earth foi fundada em 2019, mas ainda não completou os estudos de viabilidade do projeto, o que, segundo analistas, indica que a baixa concentração de terras-raras torna a exploração econômica desafiadora.
Expectativas de Produção e Desafios
Em comunicado, a USA Rare Earth projetou que, até o final de 2027, a nova empresa poderá produzir cerca de 6,4 mil toneladas métricas de óxidos de terras-raras anualmente. Para 2030, a expectativa é que o empreendimento registre cerca de US$ 1,8 bilhão em Ebitda, um indicador de desempenho financeiro que exclui despesas não operacionais.
O depósito da Serra Verde, localizado em Goiás, é conhecido por permitir a extração eficiente de metais de terras-raras devido à sua composição de argila iônica. Essa particularidade torna a operação não apenas única, mas também mais econômica em comparação a outros locais de mineração.
Como observa Rafaela Guedes, especialista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, a operação brasileira se insere em um contexto global de diversificação de cadeias produtivas em face da dominação chinesa no setor. Isso pode trazer mais atenção e investimentos internacionais, embora o sucesso industrial dependa de políticas públicas adequadas e incentivos para estimular investimentos em toda a cadeia produtiva.
Integração de Lideranças e Acordos Estratégicos
Mick Davis, presidente do Conselho de Administração do Grupo Serra Verde, e Thras Moraitis, atual CEO, farão parte do novo conselho da empresa resultante dessa fusão. Moraitis assumirá a presidência do grupo, enquanto Ricardo Grossi, que já comanda as operações da Serra Verde Pesquisa e Mineração, continuará à frente das atividades no Brasil.
A operação inclui ainda um contrato de fornecimento por 15 anos, o que garante preços mínimos e reduz riscos para ambas as partes envolvidas na negociação.
Tendências no Setor Global de Terras-Raras
Nos últimos meses, o setor de terras-raras tem testemunhado movimentações significativas em resposta a ameaças da China, que no passado recente restringiu exportações, causando preocupações sobre a continuidade das cadeias produtivas globais. O Brasil, com uma reserva estimada em 21 milhões de toneladas totais de óxidos de terras-raras, se posiciona como um jogador chave, figurando em segundo lugar apenas atrás da China no cenário mundial, conforme dados do Serviço Geológico dos EUA.
Recentemente, o governo americano lançou o Project Vault, um projeto abrangente de US$ 12 bilhões voltado para a formação de um estoque estratégico de minerais críticos, onde a Serra Verde firmou um empréstimo de US$ 565 milhões com uma agência de fomento americana. Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, o Brasil enfrenta o desafio de criar incentivos que estimulem investimentos nas etapas subsequentes da cadeia produtiva, de modo a não se limitar apenas a um fornecedor de matéria-prima.
