A Ilusão dos Alimentos Ultraprocessados
Um novo estudo realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em colaboração com a farmacêutica Novo Nordisk, traz à tona uma preocupante realidade sobre a percepção de alimentos ultraprocessados no Brasil. Publicado em 6 de abril de 2026, o levantamento, que envolveu 694 participantes, mostra que, apesar das associações dos ultraprocessados com várias doenças, eles ainda são vistos como símbolos de ‘infância feliz’ e uma conquista social em comunidades vulneráveis. Essa constatação revela a complexidade da relação das famílias com esses produtos.
Surpreendentemente, muitos consumidores tendem a considerar esses alimentos como benéficos à saúde. A pesquisa se referiu a essa percepção como “falsos saudáveis”. Por exemplo, 52% dos entrevistados acreditam que iogurtes com sabor são uma escolha saudável, enquanto 49% consideram nuggets feitos na air fryer como uma opção nutritiva. A crença de que a forma de preparo pode transformar o produto ultraprocessado em algo saudável revela uma desinformação alarmante.
Desvendando a Rotulagem
Stephanie Amaral, oficial de saúde e nutrição do Unicef no Brasil, explica que a falta de atenção à leitura dos rótulos é uma das principais causas para essas percepções equivocadas. Cerca de 55% dos entrevistados afirmaram que nunca verificam os rótulos antes de comprar, e 26% admitiram não entender as informações apresentadas neles.
Outro ponto crítico é a má interpretação do símbolo da “lupa” alertando sobre componentes prejudiciais, como sódio e açúcar. Aproximadamente 15% acreditam que esse símbolo indica que o alimento é mais saudável. Essa confusão é agravada pelo design atraente das embalagens, que frequentemente incluem personagens populares, atraindo a atenção das crianças e contribuindo para a sua preferência por esses produtos.
O Marketing e a Alimentação Infantil
A nutricionista Thais Fernanda Pereira, do Hospital Samaritano Higienópolis, ressalta que o marketing direcionado ao público infantil é extremamente agressivo, estimulando a compra de alimentos ultraprocessados. As embalagens elaboradas e as mensagens atrativas acabam influenciando as decisões das famílias, especialmente das crianças, que são atraídas por esses produtos.
O estudo também destacou que as refeições escolares são o momento de maior exposição a esses alimentos. Metade das crianças consumiu produtos ultraprocessados no dia anterior à pesquisa, enquanto apenas 27% o fizeram no café da manhã e 13% no almoço e no jantar. Em vista disso, o Unicef propõe a criação de leis que restrinjam a venda e a publicidade de ultraprocessados nas escolas, além de sugerir a inclusão do tema de alimentação saudável no currículo escolar.
Fatores que Influenciam a Escolha dos Ultraprocessados
A praticidade é um fator determinante na escolha por alimentos ultraprocessados. Stephanie Amaral destaca que, em mais de 80% dos casos, as mães são as únicas responsáveis pelas decisões alimentares na família. Essa situação faz com que esses produtos sejam vistos como a solução mais rápida e eficiente diante da falta de tempo para preparar refeições. Para mães em comunidades vulneráveis, optar por alimentos perecíveis pode ser arriscado, pois não há garantias de aceitação por parte das crianças. Essa insegurança financeira leva à escolha de ultraprocessados, que são mais aceitos.
A nutricionista do Unicef enfatiza que o aumento do consumo de ultraprocessados não deve ser atribuído apenas à falta de cuidado das famílias. É um fenômeno multifatorial, que envolve a correria do dia a dia, os custos elevados de alimentos saudáveis e a dificuldade na leitura de rótulos.
Como Identificar Alimentos Ultraprocessados
Para ajudar os consumidores a fazer escolhas mais informadas, Thais oferece algumas dicas básicas. A primeira é a leitura dos rótulos: quanto menor a lista de ingredientes, melhor a qualidade do alimento. Verificar a data de validade também é fundamental, já que alimentos com prazos de validade prolongados normalmente contêm mais aditivos químicos e sofreram processos industriais mais intensos. A recomendação é priorizar os alimentos in natura ou minimamente processados.
O conceito de alimentos ultraprocessados, introduzido em 2009 por pesquisadores da Universidade de São Paulo, divide os produtos em quatro categorias. Os alimentos in natura são aqueles que chegam ao consumidor sem adição de ingredientes. Já os ingredientes culinários processados são substâncias extraídas de alimentos naturais por métodos físicos. Os alimentos processados são ajustes simples de ingredientes do primeiro grupo, enquanto os ultraprocessados são produtos que passaram por intervenções industriais agressivas, adicionando substâncias artificiais.
Uma alternativa viável para lidar com a correria do dia a dia é preparar marmitas em casa e congelá-las. Incluir os filhos no processo de preparo das refeições também pode melhorar a aceitação de novos sabores e, se um alimento saudável for rejeitado, é válido apresentar a mesma preparação de formas diferentes antes de desistir completamente.
