Inovação em Saúde e Tecnologia
A jornalista Cristina Serra encontra-se em Belém para a gravação de um episódio da websérie “Expedição do Futuro”, iniciativa da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). Esta série de reportagens tem como foco o potencial da inovação tecnológica no Brasil e ilustra como diversas empresas estão desenvolvendo soluções que promovem o crescimento econômico com sustentabilidade. Um dos projetos em destaque é o desenvolvimento de um neuroprotetor inovador, feito a partir do gergelim, que visa o tratamento de condições como AVC e Alzheimer.
A pesquisa é uma colaboração entre a Embrapii e a startup Neuroprotect, originária de Santarém, além de contar com a contribuição do Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (Cienp). Este neuroprotetor se destaca por não apresentar os efeitos tóxicos associados a medicamentos alopáticos já existentes, podendo ser administrado dias após um AVC, diferentemente dos tratamentos convencionais que exigem a aplicação imediata.
Um Novo Paradigma no Tratamento do AVC
O acidente vascular cerebral (AVC) representa um grave desafio à saúde pública mundial. Em 2024, estima-se que o Brasil tenha registrado cerca de 84.878 mortes em decorrência dessa condição, e até abril deste ano, já foram contabilizadas 18.724 vítimas, ou seja, uma morte a cada sete minutos. Projeções indicam que até 2050, o número de óbitos no país pode chegar a 10 milhões. Já em relação à doença de Alzheimer, aproximadamente 70 milhões de indivíduos são afetados em todo o mundo, sem contar outras condições neurodegenerativas como Parkinson e Esclerose Lateral Amiotrófica.
Esses dados alarmantes motivaram a criação do neuroprotetor fitoterápico, que busca aliviar os efeitos dessas doenças e proporcionar uma melhor qualidade de vida aos pacientes. Durante um AVC, ocorre uma lesão inicial no cérebro que pode se expandir com o tempo, chegando a ocupar entre 60% e 70% do tamanho inicial. Essa expansão, chamada de degeneração secundária, é amplificada por uma neuroinflamação excessiva e pela formação de radicais livres, que causam estresse oxidativo. O neuroprotetor em questão tem como função inibir essa evolução da lesão secundária, minimizando as sequelas para os pacientes.
O Impacto do Projeto e Suas Inovações
O grande diferencial do projeto reside no desenvolvimento de um fitoterápico neuroprotetor sem efeitos tóxicos, ao contrário das opções alopáticas, que podem induzir psicose e alucinações. Este novo medicamento poderá ser utilizado dias após o AVC, ao contrário dos tratamentos convencionais que apenas dissolvem coágulos. A pesquisa é liderada pelo pesquisador João Batista Calixto, em parceria com a Embrapii e o Cienp, em Florianópolis, e conta com a participação da Neuroprotect, fundada pelo biomédico e neurocientista Walace Gomes Leal, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).
O projeto abrange um time de 12 doutores e pós-doutores, além de cinco técnicos de nível superior, muitos com formação avançada. “Uma nova alternativa terapêutica poderá oferecer tratamento a milhares de pacientes, reduzindo significativamente as taxas de invalidez relacionadas ao AVC, que é uma das principais causas de morte e incapacidade no Brasil e no mundo”, afirma Calixto. Ele também ressalta que um tratamento mais eficaz poderá diminuir os custos para o Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente em internações prolongadas e reabilitações.
Avanços na Pesquisa e Colaboração Internacional
Walace Gomes Leal, que há mais de 15 anos pesquisa lesões cerebrais, expressa que a equipe decidiu transformar a planta ST-165 em um neuroprotetor para AVC humano, após os primeiros estudos promissores. “Desde 2012, temos investigado o óleo de copaíba e outras plantas da Amazônia, descobrindo seu potencial neuroprotetor”, comenta. O projeto recebeu cerca de R$ 1,6 milhão da Embrapii para a realização de testes pré-clínicos, cujos resultados confirmaram a eficácia do produto.
A pesquisa conta ainda com a colaboração do pesquisador Allyson Moutri, da Universidade da Califórnia em San Diego, que testará o neuroprotetor em mini cérebros em experimentos relacionados ao Alzheimer. “Esses modelos, que envelhecem em órbita, apresentam características de neurodegeneração que são fundamentais para nossa pesquisa”, conclui Leal.
Entendendo os Tipos de AVC
É importante destacar que existem duas categorias de AVC: o isquêmico, que corresponde a aproximadamente 80% dos casos, resulta da obstrução de um vaso sanguíneo, enquanto o hemorrágico ocorre devido à ruptura de uma artéria. Os sintomas variam conforme a área do cérebro afetada, podendo incluir paralisia, desorientação e convulsões. O AVC é uma condição grave, e sua prevenção e tratamento adequados são essenciais para a saúde pública.
Papel da Embrapii na Inovação
A Embrapii desempenha um papel crucial ao conectar centros de pesquisa e o setor empresarial, promovendo a inovação industrial através do compartilhamento de custos em projetos que visam a introdução de novos produtos. Para participar, empresas devem apresentar seus desafios tecnológicos à unidade apropriada, assegurando que os projetos alinhem-se aos objetivos de inovação. A instituição possui acordos com o Governo Federal e parcerias com entidades como o Sebrae e o BNDES.
