Estratégias Inovadoras na Pecuária Brasileira
A estrada de chão que conduz ao Confinamento Pirapó, localizado em Sorriso, Mato Grosso, é cercada por extensas lavouras de grãos. Quando a equipe da Globo Rural visitou a região em fevereiro, os produtores já tinham colhido a soja e iniciado o cultivo do milho. Camilo Nicolau, um pecuarista de 40 anos, reflete: “Estamos acompanhando a agricultura e precisamos encontrar maneiras de competir com eles.” Junto a dois sócios, Camilo arrenda uma área na fazenda para a criação de gado.
Assim como muitos outros pecuaristas de Mato Grosso, Nicolau é natural de Marília, São Paulo, e foi influenciado pela tradição familiar na pecuária desde a infância. Formado em Administração de Empresas, ele trabalhou por dez anos em uma indústria de máquinas agrícolas, revivendo a vontade de desenvolver um projeto agropecuário que seguisse os princípios da sustentabilidade ambiental e financeira.
A mudança para Mato Grosso, em 2017, deu início a essa jornada. Nicolau se destaca na nova geração de pecuaristas, que investem em tecnologia e gestão para se adaptarem às dinâmicas do mercado internacional. O Brasil, por exemplo, conquistou a liderança global na produção de carne bovina em 2025, superando os Estados Unidos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). A previsão era de uma produção de 12,4 milhões de toneladas para o Brasil, em comparação a 11,8 milhões dos EUA, que tinham dominado o ranking desde a década de 1960.
Investimentos em Sustentabilidade e Produtividade
Para ganhar competitividade, Camilo Nicolau utiliza adubação intensiva, investe em animais de qualidade e oferece ração de primeira linha. Estar em Sorriso, reconhecida como a “Capital Nacional da Soja”, é uma vantagem estratégica. A região é ideal para a engorda, já que os animais geralmente vêm de locais com baixa produção agrícola. “É mais eficiente alimentar o gado aqui e enviá-lo para o abate do que engordá-lo longe dos centros consumidores”, argumenta Nicolau.
Trabalhando com raças como nelore e angus, Camilo realiza a recria de gado. Ele compra bezerros com aproximadamente 105 quilos e, durante a estação chuvosa, mantém o gado em pastagens rotacionadas. Quando a qualidade do capim diminui, entre abril e maio, os animais são enviados para o confinamento, onde permanecem por mais três a quatro meses antes do abate.
Até 2005, apenas 3 milhões de cabeças de gado estavam em sistema de confinamento. Esse número triplicou ao longo de duas décadas, alcançando 9,2 milhões, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). A produtividade na pecuária brasileira aumentou em mais de 70% nos últimos 20 anos, com a lotação média passando de 2,8 cabeças por hectare em 2004 para mais de cinco em 2024.
O Papel da Tecnologia e Bem-estar Animal
O projeto de Nicolau abrange 600 hectares, com capacidade para 5.000 animais em pastejo rotacionado, além de espaço para 15.000 no confinamento. No último ano, ele comercializou 31.000 bovinos, garantindo a rastreabilidade de cada animal, o que é crucial para a sustentabilidade da produção. O pecuarista é membro do movimento Carne do Futuro, que defende práticas sustentáveis.
A nutrição animal, especialmente com o uso de grãos secos de destilaria (DDG), contribuiu para o crescimento da atividade. Este alimento, disponível nas usinas de etanol da região, auxilia na manutenção do peso do gado durante a seca. Além disso, a propriedade adota práticas de integração lavoura-pecuária, que exigem cuidados especiais com a adubação.
João Carlos Magrinelli, médico-veterinário que atende várias fazendas na área, enfatiza a importância do bem-estar animal: “Os cuidados começam com um tempo de descanso para os animais e seguem até o embarque, assegurando que eles expressem todo seu potencial de ganho no confinamento.”
Expansão do Setor e Desafios Futuros
Atualmente, Mato Grosso abriga 32 milhões de cabeças de gado, segundo o IBGE, consolidando-se como o maior rebanho do Brasil. Ricardo Pichioni Martins, zootecnista da Fazenda Beira Rio, comenta sobre a eficiência necessária no setor: “Temos várias frigoríficos em um raio de 500 quilômetros, o que torna a pecuária local muito competitiva.” Ele ressalta que, mesmo em tempos de alta rentabilidade da soja, não cogitou trocar a pecuária pela agricultura. “É uma questão de vocação”, diz.
Apesar de ser o maior produtor de carne bovina do mundo, Martins destaca que o preço pago aos produtores brasileiros é uma preocupação constante, com valores em torno de US$ 60 por arroba, muito abaixo dos US$ 110 pagos nos Estados Unidos. As oscilações de preço frequentemente afetam a rentabilidade, e ele observa: “Uma notícia pode causar uma queda de R$ 10, R$ 20 na arroba.”
Em um contexto de crescente valorização do setor, as exportações brasileiras atingiram recordes em 2025, com um aumento de 20,9% no volume, totalizando 3,5 milhões de toneladas, gerando receitas de US$ 18 bilhões. O Brasil, responsável por um em cada cinco quilos de carne bovina exportada, se destaca no cenário internacional.
Com o Pará se destacando como um novo polo de crescimento na pecuária, os desafios incluem limitações logísticas e a necessidade de rastreabilidade. O governador Helder Barbalho prorrogou o prazo para a implementação da identificação obrigatória de rebanhos até 2030, buscando atender às exigências crescentes do mercado.
Em última análise, a liderança do Brasil na produção de carne bovina é resultado de uma combinação de evolução na técnica, adaptação ao mercado e compromisso com a sustentabilidade. Como afirmam os especialistas e produtores, essa transformação é um reflexo do potencial inexplorado da pecuária brasileira e da capacidade de se reinventar diante das demandas globais.
