Uma Reinterpretação da Natureza e da Cultura Amazônica
Entre os dias 5 e 8 de março, o Teatro Universitário Cláudio Barradas, em Belém, será palco do espetáculo “Sagração da Floresta”, produzido pelos alunos do Curso Técnico em Dança Clássica da Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA). Este evento traz uma perspectiva inovadora ao abordar a rica realidade amazônida, explorando temas como o sagrado feminino e o papel transformador da arte na luta contra a crise climática.
A peça é uma releitura contemporânea da obra clássica de Igor Stravinsky, apresentando um universo cênico onde o palco se transforma em um espaço de cura, memória e resistência política, ancorado na poética do “Habitante-Criador”.
Originalmente, em 1913, o mundo ficou maravilhado com “A Sagração da Primavera”, onde um sacrifício ritual de uma jovem era o ponto culminante. Contudo, mais de um século depois, a obra da Amazônia paraense traz uma reviravolta profunda nessa narrativa. O sacrifício é substituído pela regeneração, e a morte ritual cede espaço à escuta e à vida, trazendo uma visão renovada sobre o nosso relacionamento com a natureza.
Um Manifesto Artístico em Favor do Sagrado Feminino
O espetáculo “A Sagração da Floresta” se destaca como um manifesto artístico que exalta a conexão entre o sagrado feminino e a natureza, mostrando que esses elementos são inseparáveis na criação. Sob a direção das professoras doutoras Mayrla Andrade e Eleonora Leal, a obra vai além das técnicas do ballet contemporâneo, aprofundando-se em uma pesquisa coreográfica conduzida pelas “bailarinas-pesquisadoras-intérpretes”.
Mayrla Andrade define o conceito central da obra: “É um convite para mergulhar em um território poético onde corpo, memória e natureza se entrelaçam”. A dramaturgia é construída a partir de improvisações que dialogam com os elementos naturais e referências a pensadores essenciais. Ailton Krenak, por exemplo, traz à tona a visão da Terra como um organismo vivo, enquanto a poética de Paes Loureiro ancore o espetáculo no imaginário e na magia do cotidiano nortista.
Elementos Simbólicos que Conduzem a Experiência
O percurso sensorial da apresentação é enriquecido por elementos simbólicos que guiam o público em sua jornada:
- Água: Representa o fluxo e a memória.
- Terra: Simboliza origem e pertencimento.
- Fauna e Flora: Mostram a interdependência vital entre os seres.
A encenação, coordenada por Iara Souza, busca recriar a organicidade da natureza no palco do TUCB, gerando um ambiente onírico que evoca a contemplação da mata. Uma das surpresas promete ser a inclusão de um efeito de chuva real, fazendo com que as bailarinas atravessem um portal de cura.
Ademais, o figurino e a maquiagem, sob a responsabilidade de Micheline Penafort, exploram a caracterização de mulheres encantadas em um ambiente vibrante. Utilizando tecidos, máscaras, sementes e texturas orgânicas, a equipe busca representar a essência da terra, água, fauna e flora. A iluminação, por sua vez, simula os ciclos solares, variando entre azuis profundos e dourados do amanhecer, enquanto a trilha sonora mistura os sons da natureza com uma interpretação contemporânea da Sagração da Primavera.
Um Gesto de Resistência e Conscientização
A obra vai além de uma mera apresentação acadêmica, afirmando-se como um gesto de resistência política em tempos de crise ambiental. “Ao trazer à cena as histórias de vida de mulheres, jovens e crianças, buscamos manifestar estados de existência, em vez de meros personagens”, explica Mayrla Andrade. Nesse sentido, o espetáculo se transforma em um Manifesto das Habitantes-Criadoras, reafirmando que o corpo é o primeiro território a ser defendido. “Dançar também é um modo de cuidar do mundo”, conclui Andrade.
Segundo a diretora, para os artistas envolvidos, a primavera não é apenas uma estação, mas um estado de consciência de quem reconhece que é feito de terra e possui a capacidade de florescer.
Serviço
Sagração da Floresta
Dias: 5 a 8 de março – 19h
Local: Teatro Universitário Cláudio Barradas – Rua Cônego Jerônimo Pimentel, nº 546 – Umarizal
Entrada: R$20,00 (inteira), R$10,00 (meia), alunos e servidores da ETDUFPA não pagam
Informações: @sagracaodafloresta
