Desafios Enfrentados pelas Mulheres na Tecnologia
Um recente levantamento do Centro Paula Souza, responsável pelas Etecs, aponta uma queda significativa de 21,2% no número de alunas matriculadas em cursos de tecnologia integrados ao ensino médio. Em 2024, havia 11.923 meninas matriculadas, mas esse total despencou para 9.392 em 2025. Enquanto isso, o quadro masculino se manteve em mais de 26 mil estudantes. Esse cenário levanta preocupações sobre a presença feminina em um setor cada vez mais crucial para o futuro profissional.
A maior redução proporcional ocorreu no curso de Desenvolvimento de Sistemas, onde as alunas representavam 48% da turma em 2024, mas esse percentual caiu para 37% no ano seguinte. Além de Desenvolvimento de Sistemas, os cursos analisados incluíram Eletroeletrônica, Eletrônica, Informática, Informática para a Internet, Mecatrônica, Programação de Jogos Digitais e Redes de Computadores.
Experiências no Ambiente Acadêmico
A estudante Geovana Carolina Jesus Pereira, que frequenta o curso de Desenvolvimento de Sistemas na Etec Parque Belém, compartilha sua experiência. O início do curso foi desafiador para ela, que se viu em uma sala predominantemente masculina. “Foi muito assustador no começo. Chegar numa sala que tem tantos homens assim me fez querer dar um passo atrás. Eu cheguei até a tentar desistir disso”, revelou Geovana. Essa pressão pode ser um fator determinante na desistência de muitas meninas de seguirem suas aspirações em tecnologia.
As dificuldades enfrentadas não são exclusivas de Geovana. Outras ex-alunas, como Yasmin Pilla e Giovanna Mattar Romariz, também relatam experiências de preconceito durante suas jornadas. Giovanna, atualmente cursando Jogos Digitais na Fatec, mencionou que a maioria de sua sala era composta por meninos, e, por vezes, surgiam piadas e comentários desnecessários. “Às vezes, surgem algumas piadas ou comentários desnecessários”, afirmou a aluna. Essa falta de respeito não é apenas incômoda; é uma barreira que afeta a autoestima e a confiança das estudantes.
Barreiras Culturais e Desigualdade de Gênero
De acordo com especialistas, a queda no interesse das meninas por tecnologia é reflexo de barreiras culturais que se manifestam desde cedo. A autocobrança e o machismo são identificados como fatores cruciais para essa realidade. Aparecida Maria Zem Lopes, doutora em Ciências da Computação e coordenadora de uma pesquisa sobre a presença feminina em tecnologia, destaca que muitas meninas têm receio de não se saírem bem em disciplinas ligadas a matemática e exatas. “Além disso, percebem uma barreira por causa da discriminação da participação das meninas nessas áreas de tecnologia, programação e engenharia”, explica a pesquisadora.
Essas dificuldades na educação acabam refletindo no mercado de trabalho. Atualmente, as mulheres representam cerca de 30% dos profissionais da área de tecnologia, conforme levantamentos das instituições PretaLab e ThoughtWorks. Essa estatística evidencia a urgência de medidas para incentivar a presença feminina nesse setor vital.
Iniciativas para Reverter o Cenário
Com o objetivo de reverter essa situação, o Centro Paula Souza está implementando ações específicas, incluindo o projeto “Meninas na Ciência”. André Velasques de Oliveira, coordenador de comunicação da instituição, anunciou que novas iniciativas estão programadas para 2026, com o intuito de criar trilhas de desenvolvimento profissional para as meninas na área de tecnologia. “Teremos trilhas para subsidiar as meninas no desenvolvimento de sua carreira na área de tecnologia”, promete Oliveira.
Apesar de todos os desafios, alunas como Lara Motta Carneiro Silva permanecem determinadas a conquistar seu espaço. “Meu sonho é fazer Engenharia de Software e seguir nessa área de programação e banco de dados. Quero somar com esse número e fazer parte do mercado de trabalho”, compartilha a estudante, mostrando que, apesar das dificuldades, há esperança e vontade de mudança entre as futuras profissionais da tecnologia.
