Desafios e Luta dos Trabalhadores da Limpeza Urbana
A terceirização dos serviços de limpeza urbana em cidades como Belém e Porto Alegre tem trazido à tona uma realidade preocupante: a precarização das condições de trabalho. Relatos de jornadas desgastantes na escala 6×1, cortes salariais que podem chegar a 75% e a ausência de equipamentos adequados de segurança são comuns entre os profissionais dessa função essencial.
Daniele Lima e Raquel Brício, diretamente de Belém (PA), e Naf Nascimento, de Porto Alegre (RS), cobrem a luta desses trabalhadores, que se organizam para reivindicar melhores condições. A limpeza urbana, fundamental para a saúde da população e a preservação ambiental, acaba sendo delegada ao setor privado, o que, lamentavelmente, resulta em exploração e repressão aos direitos trabalhistas.
No Pará, brigadistas do jornal A Verdade têm se mobilizado na garagem da empresa Ciclus, responsável pelo serviço de limpeza na capital, buscando conscientizar os trabalhadores sobre a importância de lutar por seus direitos. As queixas mais frequentes incluem a baixa remuneração, longas jornadas e a falta de tempo para convivência familiar, agravada pela desumana escala de trabalho.
“A situação é desesperadora. Com apenas dois coletores trabalhando no lugar de três, a carga de trabalho aumentou significativamente. Muitos de nós somos obrigados a fazer horas extras apenas para sobreviver”, desabafou um gari.
Este cenário se repete em Porto Alegre, onde membros da Cooperativa de Trabalhadores Autônomos das Vilas de Porto Alegre (Cootravipa) reivindicam melhores condições de trabalho. Os relatos incluem descontos drásticos nos salários, falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e até agressões físicas. Segundo os trabalhadores, a cooperativa, que deveria representar uma alternativa, acaba por atuar como uma empresa terceirizada comum.
“Esse não é o conceito de cooperativa. Deveríamos ter voz nas decisões e um controle transparente sobre os recursos. Mas na prática, somos tratados como qualquer empregado comum, sem direitos”, criticou um trabalhador.
Falta de Direitos e Desafios no Dia a Dia
Outro problema enfrentado é o desvio de função, onde os trabalhadores são contratados como “agentes de limpeza”, mas, na prática, são forçados a atuar como coletores de entulho, sem receber qualquer compensação por isso. Joana Cardoso, que trabalha na Cootravipa, relatou que sua conta ficou muito aquém do esperado, com descontos indevidos que a deixaram sem recursos suficientes para suas necessidades.
“Após um mês de trabalho árduo, encontrei apenas 500 reais na conta, quando esperava quase 2000. Isso não é apenas comigo; outros colegas também enfrentaram a mesma situação”, criticou Joana.
A falta de comprovação das horas trabalhadas, devido ao sistema de ponto eletrônico, também aumenta a vulnerabilidade dos trabalhadores, facilitando possíveis erros ou alterações nas horas registradas. Essa situação, somada à falta de EPIs adequados, coloca em risco a saúde e a segurança dos garis, que lidam com lixo diariamente.
Além disso, o ambiente de trabalho é marcado por intimidações e ameaças, dificultando a reivindicação de direitos. Um caso alarmante ocorreu em fevereiro, quando Dionatan Pacheco, um trabalhador da Cootravipa, foi agredido por um colega. Apesar de ter formalizado a denúncia, enfrentou represálias e incertezas sobre seu futuro na empresa.
Condições de Trabalho para Mães e Pais
A escala 6×1 também é uma preocupação para muitos trabalhadores, especialmente mães como Carla Melo, que, após desmaiar no trabalho, viu sua saúde e bem-estar serem ignorados pela empresa. Após um período fora, ela retornou, mas encontrou resistência em obter folgas para cuidar de seus filhos. “Os descontos são severos. Se eu falto por um dia, posso perder até dois dias de pagamento”, explicou Carla, destacando as dificuldades enfrentadas.
Outra mãe, Mariana Lopes, permanece sem receber seu vale-alimentação e luta para sustentar seu filho pequeno. “É um verdadeiro desafio equilibrar as contas. Se pago o aluguel, não tenho dinheiro para comida e vice-versa”, desabafou.
A Luta Coletiva e as Perspectivas Futuras
Frente a essa realidade, a união entre os trabalhadores não é apenas necessária, mas essencial. Promover reuniões e fortalecer a luta por melhores salários, condições dignas de trabalho e efetivos direitos trabalhistas é crucial para enfrentar as adversidades. A organização sindical é um passo importante nessa direção, permitindo que a classe trabalhadora se una e transforme a indignação em luta.
Em todo o Brasil, a aprovação do PL 4146/2020, conhecido como PL do Gari, é uma meta comum, propondo melhorias significativas nas condições de trabalho e remuneração para os garis. Apesar da resistência de alguns senadores, a mobilização dos trabalhadores é vital para pressionar pela aprovação deste projeto, que pode representar uma mudança real na vida de muitos.
O caminho para a dignidade no trabalho é a luta coletiva. É preciso construir uma nova sociedade, onde os profissionais da limpeza urbana sejam valorizados, e não considerados descartáveis. A luta continua!
