Um Pedido de Desculpas que Ecoa na História
No último sábado (18), Pierre Guillon de Prince, um homem de 80 anos, fez história ao emitir o que é considerado o primeiro pedido formal de desculpas por um cidadão francês em relação à escravidão transatlântica. O gesto, que ocorre em um contexto onde o racismo está em ascensão na sociedade, tem como objetivo encorajar outros a fazerem o mesmo, inclusive o governo francês.
Os ancestrais de Guillon de Prince, que viveram em Nantes — então o principal porto francês para o comércio de escravos —, eram armadores responsáveis pelo transporte de aproximadamente 4,5 mil africanos escravizados e possuíam plantações no Caribe. Ele declarou sua convicção de que as famílias na França devem encarar suas ligações com a escravidão e que o Estado deve ir além de ações simbólicas, como o reconhecimento formal, e considerar reparações para aqueles que sofreram as consequências do tráfico de escravos.
“Diante do aumento do racismo em nossa sociedade, senti a responsabilidade de não deixar que esse passado fosse apagado”, afirmou Guillon de Prince, ressaltando a importância de transmitir a história de sua família para as futuras gerações.
Quebrando o Silêncio sobre o Passado
O pedido de desculpas foi feito durante um evento em Nantes, antes da inauguração de uma réplica de 18 metros do mastro de um navio, ao lado de Dieudonné Boutrin, descendente de africanos escravizados na Martinica. Juntos, eles trabalham na Coque Nomade-Fraternité, uma associação dedicada a “quebrar o silêncio” sobre a escravidão e suas repercussões.
Boutrin, que tem 61 anos, elogiou a coragem de Guillon de Prince e comentou: “Muitas famílias de descendentes de traficantes de escravos hesitam em se manifestar por medo de reabrirem velhas feridas e ressentimentos”. O mastro, segundo ele, simboliza um “farol de humanidade” que pode iluminar o caminho para a verdade sobre o passado.
Entre os séculos XV e XIX, estima-se que mais de 12,5 milhões de africanos foram sequestrados e forçados a viajar, a maior parte em embarcações europeias. O tráfico de escravos pela França é estimado em 1,3 milhão de pessoas, um número que ainda reverbera nas discussões contemporâneas sobre reparações e reconhecimento histórico.
Crescimento dos Pedidos de Reparação
A iniciativa de Guillon de Prince se alinha a pedidos semelhantes realizados por algumas famílias no Reino Unido e em outras partes do mundo, que incluem compromissos para reparar os danos causados por seus antepassados. A França, que reconheceu a escravidão transatlântica como crime contra a humanidade em 2001, nunca se desculpou formalmente por seu papel no tráfico.
O presidente francês, Emmanuel Macron, durante seu governo, tem trabalhado para ampliar o acesso a documentos sobre o período colonial, e no ano passado anunciou a criação de uma comissão para investigar a história da França com o Haiti, omitindo, porém, menções a reparações. Nos dias atuais, os pedidos de reparação, que vão desde desculpas oficiais até compensações financeiras, intensificam-se ao redor do globo, gerando debates acalorados sobre a responsabilidade de estados e instituições por crimes cometidos no passado.
Recentemente, a França se absteve de apoiar uma resolução nas Nações Unidas que, liderada por países africanos, classificava a escravidão como “o mais grave crime contra a humanidade” e solicitava reparações.
À medida que a conversa sobre o legado da escravidão avança, o pedido de desculpas de Guillon de Prince poderia ser um passo crucial em direção a uma maior conscientização e responsabilização histórica.
