Perspectivas Renovadas na Fotografia Paraense
Belém é capturada diariamente por inúmeras lentes, mas uma nova geração de fotógrafos paraenses tem buscado caminhos diferentes para narrar a cidade. Das periferias aos centros históricos, das celebrações às transformações do cotidiano, esses artistas utilizam a fotografia para registrar territórios, memórias e experiências que fogem do habitual.
Nesse cenário, no Dia Mundial da Fotografia, celebrado em 19 de agosto, o fotógrafo, arte-educador e historiador Matt Sousa compartilha como descobriu na fotografia, ainda na adolescência, uma maneira de contar histórias e criar uma conexão profunda com Belém.
Fotografia como Ferramenta de Resistência e Memória
“Eu tinha 14 anos e foi a primeira coisa que percebi que conseguia fazer, mesmo enfrentando o estigma que a sociedade impõe, enxergando-me como uma ‘pessoa incapaz’. Na faculdade, meu senso crítico amadureceu, e comecei a me incomodar com a forma como a cidade era retratada, sempre pelo olhar da elite”, relata Matt. Ele entendeu que a fotografia poderia ser um instrumento político e um ato de resistência, além de uma expressão estética.
Desde então, Matt direcionou seu trabalho para o que chama de ‘história vista das margens’, registrando as relações, encontros e afetos presentes nos territórios onde os moradores vivem.
“Quando a fotografia é compartilhada, ela fortalece o ato de fotografar, criando uma relação verdadeira com quem está diante da câmera. Os locais deixam de ser apenas cenários e passam a ser espaços de convivência, memória e troca”, explica.
A conexão de Matt com Belém também é marcada pela ausência de acessibilidade, que influencia tanto o ato de fotografar quanto seu relacionamento com os espaços urbanos.
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“Minhas imagens carregam essa mensagem: registro afetos, territórios e relações com amor, mas o processo envolve o desconforto de um corpo com deficiência em locais que não foram pensados para nós. Desejo que essas imagens ressoem como uma trilha sonora e alcancem outras pessoas com deficiência”, afirma.
Representações e Novas Metodologias na Fotografia Amazônica
Na sua produção, Matt questiona as formas tradicionais de representação da Amazônia, buscando ampliar a presença de personagens frequentemente apagados dessas narrativas. Ele destaca fotógrafos como Nay Jinknss, Rafael da Luz Serrão, Lu da Silva e Býra como parte dessa geração que experimenta metodologias inovadoras.
“Tenho muita confiança nessa geração e nas novas abordagens que estamos construindo”, completa.
Uma Visão da Periferia: O Olhar de Amarílis Marisa
Amarílis Marisa, fotógrafa e estudante de jornalismo nascida e criada na Terra Firme, também direciona sua produção a partir da relação com os territórios periféricos. A fotografia não fazia parte dos planos profissionais que imaginava para si.
“Meu primeiro contato significativo foi em uma formação, mas levei cerca de cinco anos para comprar minha primeira câmera. Comecei fotografando o cotidiano e, aos poucos, entendi que poderia construir narrativas a partir do que via e vivia”, recorda.
Hoje, Amarílis atua no fotojornalismo, fotodocumentação, fotografia artística e audiovisual, dedicando especial atenção à periferia.
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“Quero continuar mostrando, especialmente em meus registros, as qualidades do lugar onde cresci. O objetivo é desconstruir o olhar que associa esses territórios apenas à criminalidade, revelando a complexidade das pessoas e das relações que constroem esses espaços diariamente”, destaca.
Retratos de uma Belém Multifacetada
Por meio de suas lentes, Amarílis capta gestos, vizinhanças, festas, rios, residências, manifestações culturais e as diferentes formas de ocupação das ruas da capital paraense.
“Quando fotografo as pessoas que vivem nesses locais, aparecem outras relações com a cidade e distintas maneiras de ocupar as ruas e preservar memórias ao longo do tempo. Os cartões-postais também representam Belém, mas não capturam toda sua essência”, observa.
Além disso, a prática da fotografia transformou sua percepção sobre a cidade. Amarílis passou a notar detalhes que antes passavam despercebidos, como a ausência de uma árvore, uma praça abandonada ou mudanças nos hábitos de ocupação dos espaços.
“Belém se revela para mim como uma cidade de muitas camadas”, conclui.
