Importância da Descoberta
Um ninho da espécie de vespa Mischocyttarus artifex Ducke, pouco comum em registros científicos, foi recentemente descoberto em um fragmento de floresta preservada no Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), localizado no bairro Terra Firme, em Belém, Pará. Este representa o sexto ninho conhecido da espécie, conforme apontado por publicações em revistas científicas.
O estudante de doutorado Melquisedeque Valente Campos, do Programa de Pós-graduação em Zoologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), em colaboração com o MPEG, fez a coleta da amostra em uma folha de cacau perto do estacionamento da coordenação de Botânica. A descoberta foi registrada na revista Studies on Neotropical Fauna and Environment.
A Jornada do Descobridor
Natural de São Sebastião da Boa Vista, no arquipélago do Marajó, Melquisedeque sempre teve uma forte conexão com a natureza. No dia 19 de setembro de 2023, seguindo a recomendação de seu orientador e curador da coleção de entomologia do Museu Goeldi, Orlando Tobias Silveira, decidiu explorar a mata ao redor do campus, sem imaginar a importância de seu achado.
Utilizando seu olhar atento, Melquisedeque avistou o ninho disfarçado entre os galhos do cacaueiro. “Quando vi, não coletei de imediato, apenas fotografei e mostrei ao professor. Ele reconheceu a espécie imediatamente: ‘essa é a Mischocyttarus artifex! Onde está?’”, conta o estudante, que retornou para coletar o material, incluindo uma pupa e uma vespa fêmea.
Características da Espécie
As vespas da espécie Mischocyttarus artifex são consideradas sociais, sendo mais comuns de serem avistadas em comparação com as vespas solitárias, que apresentam maior diversidade. “Na família Vespidae, existem cerca de 6 mil espécies, das quais aproximadamente 5 mil são solitárias e cerca de mil são sociais”, explica Orlando Tobias.
Apesar de a abundância social ser maior, as vespas solitárias costumam ser consideradas mais raras, já que suas populações são menos numerosas. O professor salienta que, embora Mischocyttarus artifex não seja uma espécie rara na natureza, é incomum encontrar seus ninhos, principalmente em áreas urbanas.
Um Contexto de Redescoberta
Com a publicação do artigo assinado por Melquisedeque e seu orientador, apenas três registros de ninhos da Mischocyttarus artifex eram conhecidos até janeiro deste ano. Os primeiros registros datam do início do século 20, quando o entomólogo austríaco Adolpho Ducke coletou amostras na região do Oeste do Pará. O nome da espécie homenageia Ducke, que foi pioneiro em suas descobertas.
Embora os ninhos originais coletados por Ducke tenham se perdido, suas fotografias permanecem na coleção do MPEG. O terceiro ninho conhecido foi coletado em 1984 na Colômbia e está guardado no Museu de História Natural de Londres.
Raras Coletas Urbanas
Curiosamente, o ninho encontrado por Melquisedeque no campus do Museu Goeldi é o único entre os seis conhecidos até o momento que foi localizado em uma área urbana. A região metropolitana de Belém já perdeu 76% de sua vegetação nativa, estando entre as áreas mais degradadas da Amazônia. Essa perda não apenas reduz a biodiversidade, mas também ameaça ecossistemas que abrigam espécies endêmicas e ameaçadas.
“Essas áreas não podem ser negligenciadas, mesmo que sejam fragmentos pequenos. Nossa descoberta ressalta a importância da preservação das florestas urbanas”, conclui Melquisedeque, enfatizando o potencial para novas descobertas em locais que parecem insignificantes.
