Homenagens e Reconhecimento
Um impressionante megamural no Centro do Recife, no bairro da Boa Vista, atrai os olhares de quem passa. Com 200 metros quadrados, a arte retrata Naná Vasconcelos, o renomado músico pernambucano que faleceu em 9 de março de 2016. Na imagem, ele aparece com olhos fechados, tocando um berimbau, instrumento que se tornou símbolo de sua expressão artística.
A figura de Naná também é celebrada em uma estátua instalada no Marco Zero do Recife, um local icônico que abriga o principal palco do carnaval da cidade. Após uma década de sua partida, seu legado permanece vivo em diversos espaços culturais, centros de pesquisa e escolas, impactando gerações de artistas e admiradores (veja o vídeo acima).
Patrícia Vasconcelos, viúva e curadora da obra de Naná, comentou sobre as homenagens: “É legal que exista o mural, mas ele não conta a verdadeira história de Naná. A estátua é linda, mas isso não reflete tudo o que ele representou. Seu trabalho tinha uma profundidade enorme”.
Reconhecimento Internacional
Naná Vasconcelos é um ícone além das fronteiras de Pernambuco. Ele ocupou o papel de abertura do carnaval da cidade por 15 anos e foi eleito nove vezes o melhor percussionista do mundo pela revista Down Beat. Suas conquistas incluem oito Grammys, tanto latinos quanto estadunidenses, destacando-se na categoria de Melhor Disco Estrangeiro.
Em 2015, poucos meses antes de sua morte, ele recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), uma honraria que reconheceu sua contribuição à música e à educação. Na cerimônia, Naná, mesmo em tratamento contra um câncer de pulmão, demonstrou sua alegria ao ser homenageado, tocando seu berimbau com emoção, relembrando Patrícia: “Talvez tenha sido a última vez que ele tocou a peça completa”.
Legado Educacional e Cultural
Antes de receber o título, Naná já era reconhecido como pesquisador e educador musical, tendo compartilhado seu conhecimento em diversas instituições no Brasil e no exterior, incluindo Nova Iorque e na comunidade do Morro da Conceição, em Recife. Sua forma de ensinar era tão única que diversos artistas, como Gilú Amaral e Mestre Lua, seguem perpetuando seu legado na percussão.
Lucas dos Prazeres, mestre de cultura popular e amigo próximo de Naná, destacou a generosidade do artista: “Ele era uma encruzilhada de saberes, conectando pessoas e linguagens”. Segundo Lucas, Naná valorizava a individualidade de cada artista, criando um ambiente onde as singularidades eram respeitadas.
Iniciativas para Preservação do Legado
Com a intenção de continuar o trabalho de formação que Naná começou, a UFRPE lançou a Escola de Música Naná Vasconcelos, onde aulas de percussão são oferecidas à comunidade. O maestro Ewerton Marinho, que leciona no projeto, defende a quebra de paradigmas na educação musical, buscando formas de expressão mais livres e criativas.
Atualmente, a família de Naná guarda um acervo rico em vídeos, fotos e instrumentos, mas ainda não existe um espaço dedicado para exibir todo esse material ao público. Parte do acervo está armazenada no Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro, enquanto outros itens estão em exposições temporárias. Patrícia Vasconcelos tem tentado, há anos, articular a criação de um museu em Pernambuco. “Eu tenho material suficiente para um museu. A história de Naná é significativa o bastante para isso”, afirmou.
A Busca por um Museu
A Prefeitura do Recife declarou que várias iniciativas foram tomadas para preservar o legado de Naná, incluindo debates sobre a criação de um espaço cultural dedicado ao artista em 2021. Contudo, até agora, nenhum projeto concreto foi realizado. Em 2025, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães realizou a Ocupação Naná Vasconcelos, que foi apresentada em Recife e depois em Rio de Janeiro.
O governo de Pernambuco também se reuniu com Patrícia em 2025 para discutir um espaço que preservasse sua memória. A Secretaria Estadual de Cultura avaliou opções para criar um centro de referência sobre a obra de Naná, mas isso ainda dependerá de adequações e aprovações por parte da família.
Naná Vasconcelos: Um Artista do Mundo
Como cidadão do mundo, Naná não apenas homenageou suas raízes, mas também levou a cultura pernambucana para diversas partes do planeta. A fotobiografia “Naná: do Recife para o mundo”, publicada em 2022, revela o trânsito cultural do artista. Em suas últimas décadas, ele se tornou uma figura essencial na abertura do carnaval do Recife, unindo tradições e promovendo a cultura local para um público global.
Luz Morena Vasconcelos, filha do artista, compartilha que a influência do pai teve um impacto profundo em sua vida artística. “Crescer ao lado de um artista tão versátil me inspirou a explorar diversas formas de arte”, disse Luz. Naná não só encantou o mundo com sua música, mas também deixou um legado duradouro que continua a inspirar gerações.
