O Papel da Mandioca na Cultura Paraense
A mandioca é um alimento essencial na mesa dos paraenses, sendo ingrediente chave em pratos como a farinha baguda, que acompanha o açaí, e o tucupi, que realça o sabor do pato. Considerada um dos pilares da segurança alimentar e da identidade cultural do estado, a mandioca vai além da simples alimentação. Em Santa Izabel, na Região Metropolitana de Belém, este tubérculo ganhou um novo significado ao se tornar o foco de um projeto de pesquisa inovador. Assim surgiu o Museu da Mandioca da Amazônia, localizado na Comunidade Quilombola de Espírito Santo do Itá.
A história do museu começou de forma inesperada. O casal de educadores, Sigla Regina Pantoja de Freitas e Antonio de Pádua Dantas de Freitas, visitava a comunidade em busca de um local tranquilo para descansar. Mais do que um belo cenário, encontraram um acolhimento caloroso por parte dos moradores, cuja cultura inclui a produção de farinha e goma de mandioca. Nesse contexto, Sigla foi convidada a ajudar em um bingo para arrecadar fundos destinados à construção de uma igreja local. Embora o evento tenha sido realizado, os recursos obtidos não foram suficientes. Foi então que surgiu a ideia de organizar um Festival da Mandioca, visando não apenas arrecadar fundos, mas também celebrar uma tradição profundamente enraizada na comunidade.
Transformando uma Tradição em Conhecimento
O festival cresceu rapidamente, unindo a comunidade e promovendo um mutirão de esforços. Com os recursos captados, foi possível reformar o barracão, finalizar a construção da igreja e realizar diversos investimentos na região. Com o passar do tempo, Sigla e Antonio se tornaram cada vez mais integrados à cultura local e às práticas de produção de farinha. Durante essa imersão, Sigla soube que Cristina, uma moradora da região, estava estabelecendo sua própria casa de farinha, optando por uma prensa em vez do tradicional tipiti, o que gerou uma preocupação em Sigla sobre a preservação do conhecimento tradicional na produção da mandioca.
“Eu já estava fascinada pela cultura da mandioca e, ao ver aquela prensa, pensei: ‘Como ficará o tipiti?’. Conversamos com os moradores e muitos compartilham suas lembranças sobre as práticas que estavam se perdendo”, relembra Sigla. “Preocupada com a perda dessa cultura, pensei que deveríamos criar um espaço para resgatar e guardar esses conhecimentos.” A ideia foi bem recebida por Antonio e, após a aprovação da comunidade, nasceu, em 2018, o conceito do Museu da Mandioca da Amazônia.
O projeto começou com um intenso trabalho de pesquisa, já que Antonio é um estudioso da área e Sigla buscava informações na internet e coletava objetos significativos. “As pessoas começaram a procurar a gente, trazendo objetos, histórias e valores, e nos tornamos ainda mais entusiasmados”, conta Sigla. Inicialmente, o museu funcionou de forma itinerante, participando de exposições em escolas e universidades. Somente em 2025 é que o museu conquistou sua sede oficial dentro da comunidade.
Identidade e Sustentabilidade: O Impacto na Comunidade
O movimento gerado em torno da mandioca trouxe uma nova perspectiva aos moradores de Espírito Santo do Itá. Cristina Damasceno, responsável pela casa de farinha que inspirou a criação do museu, destaca que, embora a mandioca tenha sempre feito parte da rotina da comunidade, a valorização dessa cultura é um fenômeno recente. “Meu bisavô, meu avô e meu pai sempre trabalharam com mandioca, mas não havia essa confiança no potencial dela”, afirma Cristina. “Hoje, nos sentimos orgulhosos de nossa herança e do que conseguimos construir.”
No passado, a comunidade focava apenas na produção de farinha, até mesmo descartando o tucupi que escorria do tipiti. A mudança começou com uma moradora que viu a oportunidade de vender Tacacá em uma localidade próxima. “Ela começou a comprar o tucupi cru e a ferver, mostrando para a comunidade que podíamos aproveitar melhor nossos recursos”, lembra. Assim, as práticas começaram a se diversificar, e hoje, além da farinha, a comunidade produz goma, tucupi e até utiliza a casca da mandioca como adubo e ração para animais. “Agora aproveitamos tudo, desde a maniçoba até a lasanha de tucupi, valorizando nossa culinária”, explica Cristina.
O festival e o museu desempenharam papéis cruciais nesse processo de transformação. “O festival nos deu autoconfiança e mudou a percepção que as pessoas têm sobre nós, agricultores. A agricultura familiar se fortaleceu muito na nossa comunidade, que conta agora com cerca de 50 famílias. O Museu da Mandioca tem ajudado nossos filhos a conhecerem as tradições que nós vivenciamos e que precisam ser preservadas”, conclui Cristina.
