O Olhar Feminino na Fotografia e na Arte
A atriz Maeve Jinkings, filha da renomada fotógrafa Leila Jinkings, compartilhou como a influência materna moldou sua trajetória artística. Leila, que teve suas obras expostas na coletiva ‘Vetores-vertentes: Fotógrafas do Pará’, no CCBB do Rio, é conhecida por seu olhar único e sua coragem ao registrar momentos históricos. O evento, que ficará em cartaz até 30 de março, destaca a produção de 11 fotógrafas paraenses e é um marco na valorização da arte feminina na região.
Leila Jinkings é uma figura emblemática da fotografia brasileira, tendo registrado momentos significativos da história do Brasil, como a visita do Papa João Paulo II a Brasília em 1980 e importantes eleições em 1982. Sua carreira abrangeu desde coberturas jornalísticas até séries autorais que capturaram a essência da cultura LGBTQIA+ em Brasília. A artista, que se afastou dos holofotes após aposentadoria na década de 1990, teve suas imagens preservadas até serem redescobertas por iniciativa da historiadora de arte Sissa Aneleh.
Em uma reflexão sobre suas experiências, Maeve relembra que cresceu sob a influência do olhar crítico da mãe. ‘A visão despreconceituosa que minha mãe cultivava ao fotografar foi fundamental para que eu decidisse seguir a carreira de atriz’, conta. Ela revela que, mesmo tendo certeza desde jovem sobre sua vocação, hesitou em compartilhar essa aspiracão até que sua mãe a incentivou a seguir seus sonhos.
Raízes e Referências no Cinema
Maeve também creditou à sua mãe as primeiras referências que teve do cinema de autor. Desde os passeios às matinês em Belém, onde assistiu a filmes que desafiavam o convencional, até as discussões sobre o papel do ser humano nas narrativas cinematográficas, o legado de Leila se faz presente em sua arte. ‘Filmes como ‘2001’, de Stanley Kubrick, e ‘Asas do desejo’, de Wim Wenders, foram experiências que marcaram minha percepção estética’, diz a atriz.
A relação entre mãe e filha vai além da arte. Ambos compartilham histórias de desafios e superações, como as dificuldades enfrentadas por Leila ao documentar a realidade social da Amazônia, mesmo colocando sua vida em risco. ‘Cobreti protestos em Tucuruí e vivenciei momentos de grande tensão política. A fotografia me permitiu contar histórias que muitos ignoravam’, relembra Leila.
O novo olhar que Maeve desenvolveu ao longo dos anos, inspirado por sua mãe, reflete-se em sua carreira. A atriz, que já participou de diversos longas-metragens desde 2000, acredita que a vivência de sua mãe na fotografia a ajudou a buscar personagens mais complexos e humanos. ‘A busca por entender o que está por trás das imagens é algo que foi transmitido para mim’, afirma Maeve.
Redescobrindo o Passado
Recentemente, Leila teve a oportunidade de revisitar seu acervo fotográfico, algo que a emocionou profundamente. ‘Fiquei muito tempo sem ver esse material. Com o convite da exposição, redescobri muitas fotos e negativos que achava ter perdido’, confessa. Essa experiência não apenas trouxe à tona memórias, mas também reacendeu sua vontade de voltar a fotografar. ‘É um bloqueio que eu gostaria de superar’, diz a fotógrafa.
A presença de Leila na exposição ‘Vetores-vertentes’ e o reconhecimento de seu trabalho são um tributo não apenas à sua carreira, mas também à luta e à voz das mulheres na arte. Maeve espera que, após essa exposição, sua mãe continue a ser reconhecida e exposta com mais frequência. ‘A arte dela merece brilhar ainda mais’, conclui Maeve, destacando o impacto duradouro que a figura materna teve em sua vida e carreira.
