Desvendando os Segredos dos Manguezais
Você já ouviu falar do Salgado Paraense? Essa região abrange 11 cidades na costa do Pará e, surpreendentemente, a Amazônia não se resume apenas a rios de água doce. Na Amazônia Oriental, perto do Maranhão, a costa é profundamente influenciada pelo mar, um aspecto discutido recentemente nesta coluna.
Em 2024, iniciamos um projeto inovador focado na coleta de DNA ambiental (eDNA, do inglês Environmental DNA) em manguezais brasileiros, com o intuito de responder a duas questões cruciais na ecologia: 1) qual fator é mais decisivo na dinâmica das comunidades de peixes — a competição ou a predação?; 2) o que influencia a sobrevivência dos peixes jovens?
Poderíamos ter explorado diversos habitats, mas optamos pelo ecossistema manguezal. A razão para essa escolha? A sobrevivência das espécies ali é intensamente desafiada em um curto espaço de tempo — especialmente entre as marés altas e baixas. Durante o verão, quando a disponibilidade de recursos diminui, a competição e a predação se exacerbam, tornando o ambiente ainda mais crítico para a vida aquática.
Funções Ecológicas dos Manguezais
Os manguezais não apenas fornecem um habitat essencial para diversas espécies, mas também desempenham papéis ecológicos vitais. Eles atuam como barreiras naturais contra a erosão costeira, são importantes reservatórios de carbono — fundamentais na luta contra as mudanças climáticas — e, em um cenário de exploração petrolífera no norte do Brasil, são os primeiros ecossistemas a sofrerem os impactos de potenciais acidentes ambientais.
Escolhemos os rios Telha e Caeté, localizados no nordeste do Pará, como os cenários do nosso estudo. O Grupo de Investigação Biológica Integrada (GIBI/UFPA) encarregou-se de coletar amostras ao longo dos ciclos de maré, filtrando água e coletando peixes em diferentes horários do dia e da noite. Foi uma experiência desafiadora, mas contamos com a colaboração de experientes pescadores locais da Vila da Telha e de Bacuriteua: Dona Lúcia, Seu Cunha, Manoel (Kêkê), Raí, Anderson (Baiano), Carlos (o outro Baiano), Gesser, Zidane e Dona Odiléia. Sem o apoio deles, nossas coletas seriam impossíveis.
Desafios e Aprendizados na Coleta de eDNA
A natureza impõe seus desafios. Durante nossa jornada, enfrentamos perdas — muitas redes foram danificadas. Ajustamos nossos planos, mudamos rotas e horários, mas conseguimos concluir o ciclo de coletas conforme o esperado, respeitando as fases da lua.
Lugares como a comunidade da Telha têm grande importância não só para a ciência. Capturamos dados científicos, sim, mas também vivenciamos experiências enriquecedoras. Pense no custo do peixe que você consome: viver da pesca é uma tarefa difícil e muitas vezes desvalorizada. Após dez dias navegando entre rios e estradas, finalizamos a coleta no Salgado Paraense, com a expectativa de retornar em julho para o segundo ciclo de verão.
Sequenciamento e Devolução dos Resultados
As amostras coletadas foram enviadas de Belém para Oslo, na Noruega, onde passarão pela técnica de sequenciamento conhecida como ‘metabarcoding’. Essa abordagem permite identificar espécies com base em pequenos fragmentos de DNA encontrados em uma amostra. Somente após essa análise poderemos responder às perguntas que nos motivaram inicialmente. Em seguida, vamos compartilhar os resultados com as comunidades da Telha e de Bacuriteua, mostrando a elas um aspecto fascinante: o que realmente os peixes consomem.
Embora tenha certa experiência na área, este projeto se revelou um grande desafio. A interação com novas áreas aquáticas e a troca de conhecimentos sobre peixes, redes e motores de barco, assim como sobre sequenciamento genético, programação e bioinformática, enriqueceram minha trajetória. Realizar ciência em condições extremas é, sem dúvida, uma oportunidade valiosa de aprendizado.
