O Impacto da Inteligência Artificial na Cognitividade Humana
A inteligência artificial (IA) tem se mostrado cada vez mais indispensável em diversas áreas, como categorização e análise de dados. Entretanto, esse avanço tecnológico levanta questionamentos sobre a possível dependência cognitiva e a perda da habilidade humana de criar narrativas próprias, um fenômeno que o renomado físico e pensador Marcelo Gleiser se refere como “emburrecimento”.
Para Gleiser, a inovação deve ser compreendida como parte de um “quarteto existencial”, que combina ciência, filosofia, espiritualidade e artes. “Se não nos apoiarmos bem nesses quatro pilares, a cadeira fica capenga e cai”, afirma ele. Gleiser é um dos curadores do São Paulo Innovation Week (SPIW), um festival que deve ocorrer em maio de 2024, promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos. A expectativa é que o evento atraia cerca de 90 mil visitantes, oferecendo uma programação rica em palestras de especialistas internacionais, debates e atrações culturais.
O evento irá ocupar locais icônicos da cidade, como a Mercado Livre Arena Pacaembu e a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). A venda de ingressos começará na próxima segunda-feira, 23.
O Paradoxo do Conhecimento e Inovação
Em sua obra “A Ilha do Conhecimento”, Gleiser discute o paradoxo do conhecimento: quanto mais aprendemos, mais aumentam nossas perguntas sobre o desconhecido. Ele cita o exemplo do telescópio, que, ao ser inventado no início do século XVII, permitiu que Galileu Galilei visse o que nunca havia sido observado antes, como as crateras e montanhas da Lua. Essa ampliação da visão trouxe consigo novas questões que antes não podiam ser imaginadas.
Esse fenômeno se repete na história da ciência, onde cada nova descoberta gera novas dúvidas. Gleiser ressalta que a inovação tecnológica é um motor fundamental para o progresso científico, pois é a partir dela que surgem novos conhecimentos e questionamentos.
A IA como Ferramenta de Conhecimento
Por outro lado, Gleiser diferencia a inteligência artificial de ferramentas tradicionais como o telescópio. Enquanto o primeiro é um amplificador da realidade, a IA é uma máquina que utiliza cálculos estatísticos para análise de dados. “Ela não amplia nossa visão de mundo, mas é uma ferramenta que pode auxiliar na cognição humana”, explica. Segundo ele, o verdadeiro desafio não está na IA em si, mas na maneira como as pessoas a utilizam.
O professor destaca que a tecnologia pode ser empregada tanto para o bem quanto para o mal. Assim como qualquer inovação, sua aplicação depende das intenções de quem a controla. A inteligência artificial pode ajudar a avançar pesquisas científicas, como a busca por tratamentos de doenças, mas também pode ser utilizada de forma irresponsável.
Perdas Cognitivas e a Educação
Um dos pontos críticos abordados por Gleiser é a possibilidade de que a IA limite a capacidade humana de contar histórias, um elemento central da nossa natureza. Ele observa que muitos alunos, ao utilizarem chatbots para redigir textos, demonstram uma queda significativa no aprendizado. “A diferença entre um texto escrito manualmente e um gerado por máquina é enorme”, comenta. Ele alerta que, ao confiar excessivamente em tecnologias, a capacidade crítica e criativa dos indivíduos pode ser comprometida.
Além disso, Gleiser menciona que o uso de IA tem impactado o mercado de trabalho, com a substituição de empregados humanos por máquinas em diversas áreas. Essa transição levanta preocupações sobre a desumanização das relações de trabalho, onde a inteligência humana, que é essencialmente relacional, pode ser desvalorizada.
Integração das Dimensões da Existência
O cientista também fala sobre a interconexão entre ciência, filosofia, espiritualidade e artes. Ele defende que essas quatro dimensões são fundamentais para a construção de uma existência equilibrada. “A inovação não deve se limitar a um único aspecto, mas deve integrar todas essas áreas para ser verdadeiramente eficaz”, ressalta.
Para formar profissionais capazes de equilibrar esses quatro pilares, Gleiser sugere uma reforma curricular que promova uma visão mais holística do conhecimento. Nos EUA, por exemplo, muitos estudantes têm a oportunidade de explorar diferentes áreas antes de decidirem seu foco de estudos, o que enriquece sua formação.
Como Aumentar a Inclusividade na Educação
Por fim, Gleiser enfatiza a importância de aumentar o acesso a recursos educacionais. Ele argumenta que toda criança possui um potencial científico inato, mas que, para se desenvolver, é necessário ter acesso a laboratórios e experiências práticas. “É fundamental ampliar o acesso à educação e incentivar a filantropia voltada para essa área”, conclui, destacando que a transformação da educação deve ser uma prioridade para a sociedade.
