A Crise das chuvas em Belém: Um Alerta Urgente para a gestão pública
As intensas chuvas que atingiram Belém nos últimos dias não apenas causaram estragos; elas expuseram uma triste realidade. O volume das águas que inundou a capital paraense alagou ruas, destruiu residências e arrastou pertences de famílias inteiras, revelando o despreparo da Região Metropolitana de Belém, incluindo Ananindeua e Marituba, para enfrentar os desastres que o clima já anunciava.
O famoso conceito de “Cisne negro”, criado pelo pensador Nassim Taleb, se mostra cada vez mais pertinente, mas de uma forma distorcida. Para Taleb, um “cisne negro” é um evento raro e imprevisível que causa grandes impactos. No entanto, as enchentes na região já deixaram de ser raras ou imprevisíveis. Modelos climáticos alertaram há anos sobre a intensificação das chuvas na Amazônia Oriental. O que está em falta não é informação, mas sim vontade política para agir.
O cenário desolador que se observa em Belém e nas cidades vizinhas é, portanto, um reflexo da incapacidade de gestão pública. Ao invés de um cisne negro, o que se vê é um “cisne cinzento”: um evento já previsto que se transforma em tragédia devido à inação das prefeituras. Não se trata de responsabilizar um único gestor ou partido, mas sim de identificar um padrão sistêmico de ineficiência que perpassa diferentes administrações ao longo das décadas.
Leia também: Lula Sanciona Lei para Resgate de Animais em Desastres Naturais
Leia também: Jerônimo Rodrigues: A Influência da Experiência Pessoal na Gestão Pública da Bahia
Fonte: vitoriadabahia.com.br
A Ineficiência Gerencial e o Fluxo Político
Aplicando o modelo dos múltiplos fluxos de John Kingdon ao caso, evidencia-se que os problemas enfrentados – as enchentes recorrentes – e as possíveis soluções – como planos de drenagem e contenção de encostas – nunca se conectam ao fluxo político. Isso acontece porque as autoridades locais priorizam apagar incêndios em vez de se preparar para o que está por vir.
Os “empreendedores” mencionados por Kingdon, aqueles que poderiam articular e integrar os diferentes fluxos, são quase inexistentes nas gestões de Belém, Ananindeua e Marituba. Os quadros das prefeituras são escolhidos com base em alianças políticas e não em meritocracia. Quando há técnicos competentes, muitas vezes suas propostas são sufocadas pela lógica do “muddling through”, ou seja, a gestão por tentativas e erros.
As imagens que circularam pelo país, mostrando famílias em lajes, móveis flutuando e crianças sendo resgatadas em botes improvisados, falam por si. Em Marituba, bairros inteiros se transformaram em lagos, enquanto em Ananindeua a infraestrutura já debilitada não suportou o impacto. A capital, que sediará a COP30 em 2025, viu suas ruas alagadas, evidenciando a ironia cruel da situação.
Leia também: Ifac oferece 40 vagas para curso superior em Gestão Pública em Sena Madureira
Fonte: acreverdade.com.br
A Necessidade de Ações Proativas
Após a tragédia da Boate Kiss, em Porto Alegre, o Brasil viu a aprovação de leis, mas isso ocorreu tarde demais, e apenas após perdas. Essa lógica reativa é comum na política pública: as ações só são tomadas quando a situação se torna insustentável. Na Região Metropolitana de Belém, a população enfrenta mortes provocadas pela falta de medidas preventivas. Até quando será necessário contabilizar desabrigados para que se apresente um plano eficaz de macrodrenagem?
O problema vai além da mera incompetência técnica – trata-se de politicagem. Obras de infraestrutura são frequentemente tratadas como ferramentas eleitorais; a urgência de se reeleger prevalece sobre a necessidade de ações preventivas, o que resulta em uma gestão pública que se limita a ações emergenciais, como distribuição de cestas básicas durante enchentes.
Um Chamado à Reflexão
Enquanto isso, o “Cisne negro” – ou melhor, o “cisne cinzento” – continua sobrevoando a Amazônia, e sua próxima aparição não será um acaso. A ciência já previu que eventos climáticos extremos se tornarão mais frequentes e intensos. A verdadeira questão é se, quando a próxima tempestade chegar, os gestores já terão tomado medidas efetivas, ou continuarão apenas a esperar e filmar.
Alguns desastres podem ser naturais, mas a ineficácia dos políticos não deve ser naturalizada. Que as chuvas sobre Belém sirvam como um aviso, um chamado à ação para que a gestão pública não se resuma a sorrisos em palanques, mas a esforços reais para proteger as famílias e o que elas construíram ao longo da vida.
Porque o “Cisne negro”, quando se instala, não faz distinção entre eleitores de diferentes lados. Ele afeta a todos, indiscriminadamente.
