Uma Nova Abordagem para o Tratamento do Autismo
No campus de São Gonçalo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a Faculdade de Formação de Professores (FFP) se destaca com uma pesquisa inovadora que entrelaça ciência e afeto. Nesse contexto, pais e mães de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) uniram-se a pesquisadores e estudantes para comprovar que a interação com animais pode se transformar em um suporte terapêutico significativo, com fundamentos educacionais e científicos.
Fundado em 2015 e coordenado pela professora Vanessa Breia, o Grupo de Estudos e Pesquisas em Autismo e Intervenções Assistidas por Cães (Gepac) tem como objetivo oferecer atendimento de alta qualidade em serviços assistidos por animais (SAA). O projeto é uma intersecção de conhecimentos, reunindo profissionais e acadêmicos de diversas áreas, como educação, psicologia, biologia, comportamento animal, enfermagem e psicomotricidade.
Vanessa, que é psicóloga e psicomotricista, possui vasta experiência no campo e tem se dedicado ao trabalho com SAA desde 2002, sendo uma das pioneiras dessa abordagem no Brasil. “Iniciei meus projetos de pesquisa e extensão na Uerj logo após minha entrada na universidade, sempre com crianças que apresentam deficiência ou transtornos do neurodesenvolvimento. O Gepac surgiu como uma escolha pessoal para focar nos cães, atendendo especificamente crianças e adolescentes com TEA”, revela.
Pesquisa, Formação e Extensão: Os Três Eixos do Gepac
O Gepac opera em três frentes principais: pesquisa, extensão e formação. O grupo realiza investigações acadêmicas, publica artigos e organiza eventos, como a Jornada de Autismo da Uerj, que chega à sua quinta edição em 2025. Durante esses eventos, são promovidas rodas de conversa e oficinas práticas abordando tópicos como inclusão escolar e políticas públicas voltadas para o autismo.
Essas atividades são abertas ao público e têm como público-alvo não apenas familiares e profissionais da educação, mas também estudantes e indivíduos com TEA. O foco é criar um espaço de diálogo inclusivo, onde o conhecimento produzido está alinhado com as realidades do cotidiano e as necessidades sociais.
Vanessa destaca ainda que o grupo oferece formação inicial e continuada para profissionais e estudantes das áreas de saúde e assistência social, interessados nos métodos terapêuticos. “Com nossos projetos, conseguimos proporcionar uma formação específica para os alunos e cursos de extensão para profissionais que desejam se especializar em SAA com cães”, explica.
Impactos Reais na Vida das Crianças
Um exemplo do sucesso das intervenções do Gepac é Laura de Abreu Neves, uma estudante de 14 anos do 9° ano do ensino fundamental. Sua mãe, Flávia, relata como a vida da jovem mudou após o contato com a professora Vanessa e a cão terapeuta Benta. “Laura, antes, tinha dificuldades com contato visual e socialização. Desde que começou a participar das atividades em 2016, seu desenvolvimento tem sido notável. Hoje, ela interage e se comunica muito melhor”, conta Flávia, evidenciando a importância do projeto.
Compromisso com o Bem-Estar Animal e Humano
Outro aspecto importante do Gepac é o foco em pesquisas que priorizam o bem-estar animal, respeitando protocolos sanitários e promovendo um relacionamento ético entre humanos e cães. O assunto é bastante pertinente, especialmente diante do aumento das denúncias de maus-tratos a animais, que têm pressionado a sociedade a exigir legislações mais rigorosas.
A Evolução dos Serviços Assistidos por Animais
A ideia de utilizar animais em ambientes terapêuticos remonta a 1792, quando o inglês William Tuke começou a integrar a convivência entre pacientes e animais no tratamento de doenças mentais. Essa abordagem humanizada substituiu métodos coercitivos por uma interação baseada no afeto. No Brasil, a psiquiatra Nise da Silveira, na década de 1940, incorporou essa prática em seu trabalho, reconhecendo a importância dos animais como mediadores nas relações terapêuticas.
Embora inicialmente denominada zooterapia, a prática evoluiu para o que hoje conhecemos como serviços assistidos por animais (SAA), uma terminologia adotada em 2024 para definir a utilização planejada e supervisionada de animais treinados em processos terapêuticos e educacionais.
No âmbito do Gepac, as pesquisas visam entender como a interação com cães pode beneficiar a comunicação, a atenção e o bem-estar emocional de crianças e jovens com TEA. Além dos impactos individuais, as iniciativas do projeto promovem alterações na percepção social sobre o autismo e ressaltam a importância da presença de animais tanto na saúde quanto na educação.
