Chico Science: O Gênio por trás do Manguebeat
Nesta sexta-feira (13), o universo musical celebra os 60 anos de Chico Science, artista pernambucano que, ao entoar que o “galeguinho do Coque não tinha medo da perna cabeluda”, lançou um disco que se tornou um verdadeiro manifesto do movimento Manguebeat. Com seu estilo inconfundível, marcado por chapéu de palha, óculos escuros e colares, Francisco de Assis França Caldas Brandão, ou simplesmente Chico Science, nasceu em Olinda no dia 13 de março de 1966.
A inquietude e a experimentação musical de Chico são admiradas por Luciana Mendonça, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autora do livro “Manguebeat: A Cena, o Recife e o Mundo”. Para ela, ele é um autêntico cientista dos ritmos. “O que mais impressiona é o processo desse jovem que se interessava por break e música negra, que frequentava diversos espaços, e fundou várias bandas, como Bom Tom Rádio e Loustal, que, com Lúcio Maia e Dengue, formariam a Nação Zumbi ao lado dos percussionistas de Lamento Negro, Gilmar Bola 8 e Toca Ogan”, destaca.
Formação Musical e Identidade
Luciana enfatiza que o período que antecedeu a formação da Nação Zumbi foi crucial na trajetória de Chico. “Durante essa fase, ele experimentou e explorou diversas referências e experiências que moldaram sua identidade musical”, afirma. A professora observa que a interação com as musicalidades das periferias da Região Metropolitana do Recife foi fundamental para o artista. “Esse contato com a música negra, especialmente com a Soul Music e o hip hop, foi determinante para a transformação de Francisco de Assis França no Chico Science”, explica.
Aglutinador da Cena Manguebeat
Uma das principais características de Chico era sua habilidade em reunir diferentes artistas e ideias. Para Luciana, ele se tornou uma figura central na articulação do Manguebeat. “Ele foi o aglutinador da cena musical, dando nome ao movimento. A expressão ‘Manguebeat’ parece óbvia hoje, mas sua origem está intimamente ligada ao mangue, uma paisagem fundamental do Recife”, detalha.
Além disso, o movimento se destacou ao articular produções culturais já existentes na cidade com as inovações musicais de Chico. “É impressionante como ele conseguiu incorporar a produção local, como a banda Devotos, surgida nos anos 80, e aglutinar tudo em torno de sua figura. Ele se tornou central para a cena local, insuflando a valorização da pluralidade de sonoridades do Recife”, acrescenta a professora.
Valorização da Cultura Popular
Outro aspecto relevante do Manguebeat, segundo Luciana, é sua relação com a cultura popular pernambucana. Ao invés de substituir tradições locais, o movimento buscou valorizá-las. “Uma das inovações do Manguebeat foi colocar os mestres da cultura popular no centro do palco, em vez de excluí-los. As fusões musicais não eliminaram a cultura popular, mas a integraram”, ressalta.
De Pernambuco para a Cena Global
O legado de Chico Science e da Nação Zumbi transcende fronteiras, sendo reconhecido tanto no Brasil quanto internacionalmente, especialmente por conta dos álbuns lançados durante sua carreira. “Ele e a Nação Zumbi lançaram ‘Da Lama ao Caos’ e ‘Afrociberdelia’, que tiveram um impacto imenso. Estes discos figuram em várias listas de melhores álbuns da década e da música popular. Para minha geração, foi uma experiência transformadora”, comenta Luciana.
A originalidade sonora que a banda trouxe, misturando ritmos pernambucanos com rock, hip hop e música eletrônica, foi uma verdadeira novidade no cenário musical da época. “A sonoridade da Nação Zumbi revolucionou a música popular brasileira dos anos 90 e, internacionalmente, os colocou em festivais de World Music”, afirma.
Um Legado Duradouro
O impacto de Chico Science vai muito além da música. Ele influenciou a abordagem criativa de diversas bandas, incentivando-as a expressar suas identidades culturais. “O lema de Chico era ‘faça o que você é’, uma adaptação do ‘faça você mesmo’ do punk. Ele instigou artistas a expressarem suas experiências e influências, o que inspirou muitas bandas no Brasil e no exterior”, conclui Luciana Mendonça.
