Importância do acolhimento na prevenção ao escalpelamento
Na última sexta-feira (28), Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento, a Organização dos Ribeirinhos Vítimas de Acidente de Motor (Orvam) reforçou sua atuação em Belém, destacando o acolhimento e a conscientização como ferramentas essenciais para enfrentar esse grave problema. Há 16 anos presente na região, a Orvam oferece suporte a mulheres que sofreram esse tipo de acidente, promovendo a reconstrução da autoestima e o resgate da identidade.
O evento ocorreu na sede da organização, com a presença de integrantes, apoiadores e representantes do Comando do 4º Distrito Naval da Marinha do Brasil. Alessandra Almeida, presidente da Orvam, ressalta que a prevenção é fundamental para reduzir os casos de escalpelamento. Atualmente, a entidade acompanha 25 mulheres que deixaram de ser chamadas vítimas para serem reconhecidas como integrantes, fortalecendo seu processo de recuperação.
O papel da Orvam no suporte às mulheres
Alessandra destaca que o trabalho da organização vai além do atendimento clínico, focando principalmente na autoestima das mulheres afetadas. “O ponto principal é inserir essas mulheres na sociedade, enfrentando o preconceito e a ausência do cabelo que marcaram suas vidas”, explica. Após o tratamento inicial na Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará (FSCMPA), referência no atendimento, as mulheres são encaminhadas à Orvam, onde participam de atividades como a confecção de perucas, coordenada por Regina Formigosa.
A presidente da Orvam também chama a atenção para a quantidade de embarcações clandestinas nos rios do Pará, muitas delas sem controle adequado, o que aumenta os riscos de acidentes graves como o escalpelamento.
Histórias de superação e apoio contínuo
Raíza Oliveira, estudante de 24 anos e integrante da Orvam, sofreu um acidente aos 8 anos durante um evento religioso em uma embarcação pequena. Após perder 70% do couro cabeludo, recebeu suporte desde o primeiro atendimento na Santa Casa. “O acompanhamento vai além da cirurgia plástica, envolve cuidado emocional e social”, conta. Para ela, o acolhimento da Orvam foi decisivo para entender que a falta do cabelo não diminui sua força ou identidade.
Outro exemplo é Arlene Prata Castor, que há 44 anos enfrenta as consequências de um acidente aos 10 anos. Dona de casa e integrante da Orvam, Arlene lembra o trauma que permanece, mesmo após todos os cuidados médicos e o apoio para confeccionar perucas na organização. Ela reforça o alerta para prevenção: “As mulheres precisam se cuidar, usar proteção e estar atentas nos barcos para evitar que acidentes como esse continuem acontecendo”.
Orientações e prevenção para evitar novos casos
Além do apoio às vítimas, a Orvam destaca a importância da conscientização para evitar novos casos de escalpelamento. A presidente Alessandra Almeida lembra que a Marinha do Brasil intensifica ações de prevenção, como a instalação de proteções nos eixos dos motores das embarcações. A Capitã de Corveta Danniely Viana Nery, do Comando do 4º Distrito Naval, orienta o uso de toucas e prendedores para cabelos e a busca imediata por atendimento em caso de acidente.
Dados da Secretaria de Estado de saúde pública (Sespa) indicam que, em 2025, o Pará registrou três casos de escalpelamento. A lesão ocorre principalmente quando os cabelos se enroscam no eixo do motor, arrancando o couro cabeludo. A Comissão Estadual de Prevenção aos Acidentes com Escalpelamento da Sespa atua em parceria com o Ministério Público do Pará (MPPA), Defensoria Pública da União (DPU) e Conselho Regional de Psicologia (CRP) para oferecer suporte integral às vítimas.
Direitos e acesso ao Benefício de Prestação Continuada
A presidente da Orvam esclarece que as vítimas têm direito ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), que pode ser solicitado via Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Esse apoio financeiro é fundamental para garantir condições dignas às mulheres que enfrentam as consequências do escalpelamento, reforçando a necessidade de políticas públicas eficazes para prevenção e acolhimento.
O trabalho da Orvam em Belém demonstra que o enfrentamento do escalpelamento exige uma combinação de prevenção, atendimento qualificado e suporte emocional. A organização segue firme na missão de transformar vidas, promovendo inclusão e fortalecendo a autoestima de quem convive com essa realidade.
