Avaliação dos Riscos em Contextos de Conflito
A usina nuclear de Zaporizhzhia, localizada nas proximidades das frentes de combate entre Rússia e Ucrânia, tem sido alvo de crescente atenção devido à instabilidade na região. Em abril, a central enfrentou a perda total de energia externa em pelo menos duas ocasiões. No dia 14, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) declarou que a usina ficou sem eletricidade pela décima terceira vez desde o início da guerra, após a desconexão da última linha de transmissão. “Os geradores de emergência a diesel foram acionados para garantir a continuidade das funções de segurança essenciais”, informou a AIEA.
Além disso, a situação das instalações nucleares no Irã também levanta preocupações, especialmente em relação às tensões entre esse país, os Estados Unidos e Israel, criando um cenário propício para um conflito. Ambas as situações suscitam a pergunta: existe um risco real de um novo desastre nuclear de grandes proporções?
Cerca de quatro décadas após o trágico desastre de Chernobyl, o receio de uma nova catástrofe nuclear se intensifica, especialmente com a concomitância de duas guerras.
Comparação entre Chernobyl e Zaporizhzhia
As circunstâncias que cercaram o desastre de 1986 diferem bastante dos riscos atuais que a AIEA projeta para 2026. Vale lembrar que o acidente em Chernobyl aconteceu em tempos de paz, resultante de falhas de projeto e decisões inadequadas dos operadores da usina. O professor Renato Cotta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), destaca: “Não se pode dizer que qualquer reator pode sofrer uma explosão como em Chernobyl. Os reatores modernos têm características que minimizam a probabilidade de incidentes graves, embora riscos ainda possam surgir em cenários extremos, como guerras”.
Para entender por que uma repetição do desastre de Chernobyl é improvável, é crucial analisar as diferenças nos projetos das usinas nucleares. Enquanto Chernobyl contava com reatores do modelo RBMK, Zaporizhzhia é equipada com reatores da família VVER, que apresentam um histórico de segurança superior.
Os Reatores VVER e RBMK: Distinções Cruciais
Os reatores de Chernobyl, RBMK, e os de Zaporizhzhia, VVER, compartilham origens comuns, tendo sido desenvolvidos entre os anos 1960 e 1970. No entanto, as diferenças em seus designs são significativas. O sistema VVER, por exemplo, utiliza água sob alta pressão tanto para refrigeração quanto para moderação das reações nucleares. Isso resulta em um coeficiente de vazio negativo, que contribui para a estabilidade do reator. “Os reatores VVER são projetados para se autoestabilizarem, possuem sistemas de resfriamento de emergência e uma estrutura robusta para conter eventuais liberações de material radioativo”, explica Cotta.
Por outro lado, os reatores RBMK, que moderam a reação com grafite, apresentam um coeficiente de vazio positivo, o que aumenta o risco de instabilidades. Cotta ressalta que esses fatores foram parte integral do acidente em Chernobyl, onde uma série de decisões e falhas de projeto culminaram em uma explosão devastadora.
O Legado de Chernobyl e o Futuro das Usinas Nucleares
A decisão soviética de priorizar os reatores RBMK foi influenciada por diversos fatores, incluindo custos e a capacidade de operar com urânio enriquecido a 1,8%. Entretanto, essa escolha teve consequências desastrosas. Já os reatores VVER, apesar de mais caros, oferecem maior segurança devido às suas estruturas mais robustas e à tecnologia de resfriamento. Comparando-se a Fukushima, Cotta observa que um acidente em Zaporizhzhia seria mais controlado, dado que as estruturas de contenção limitariam a liberação de material radioativo.
O professor também comenta sobre a situação no Irã, onde a AIEA tem expressado preocupações sobre a segurança de suas instalações nucleares, que também utilizam reatores VVER. “Embora um ataque possa causar liberação localizada de material radioativo, a chance de um desastre como Chernobyl é baixa, dado as diferenças de projeto e operação das usinas”, conclui Cotta.
Por fim, o papel da AIEA é vital em meio a essas tensões, especialmente considerando os riscos associados a conflitos que podem comprometer a segurança nuclear em áreas de instabilidade. O legado de Chernobyl, portanto, permanece como um lembrete sombrio da importância de uma gestão segura e responsável das usinas nucleares em tempos de crises.
