Inovação e Cultura: A Tecnologia a Serviço do Akwê
Em São João das Missões, no Norte de Minas Gerais, onde os indígenas representam 79,84% da população, a conexão dos Xakriabás à TV digital enfrenta um desafio significativo: a luta contra o apagamento de sua língua. Após anos de silenciamento cultural que deixou muitos sem domínio do idioma ancestral, a introdução de tutoriais e tecnologias traduzidas para o Akwê, a língua materna da comunidade, surge como um recurso vital para sua revitalização.
O projeto Brasil Antenado garante acesso gratuito à TV digital e agora inclui a tradução de materiais informativos em línguas nativas. Com a coordenação da Entidade Administradora da Faixa (EAF) e a colaboração direta de líderes locais, a tradução se transforma em um ato de resistência. O cacique José dos Reis, responsável por traduzir manuais, destaca que o uso de tecnologias modernas, como o sinal de TV e mensagens de WhatsApp, é uma estratégia inovadora para reverter o esquecimento do Akwê e transformar a inclusão digital em uma prática efetiva.
“Através da tecnologia, conseguimos ampliar o alcance da língua nativa, envolvendo mais pessoas e contribuindo para a recuperação do nosso idioma. Acreditamos que pequenas traduções podem fazer uma grande diferença, especialmente porque muitos usam a televisão e a internet diariamente. A tecnologia pode ser uma aliada essencial na recuperação do Akwê”, ressalta José dos Reis.
Superando Barreiras Linguísticas com Inclusão Digital
A EAF afirma que a ampliação da comunicação em idiomas nativos no Brasil é crucial para romper barreiras linguísticas. Além do Akwê, a tradução de materiais já abrange as línguas Munduruku, Ingarikó, Xavante, Macuxi, Iny Rybè e Guarani. A implementação dos tutoriais nos idiomas ancestrais resultou em um aumento significativo do interesse nas comunidades. Em Jacareacanga, no Pará, a adesão ao Brasil Antenado cresceu 150% com a introdução da ferramenta em Munduruku. Em Uiramutã, em Roraima, onde a população indígena é a maior do país, o crescimento foi de 124% nas versões em Macuxi e Ingarikó.
Para a CEO da EAF, Gina Marques, a tecnologia não pode substituir a rica ancestralidade dos povos indígenas. “O Brasil é um país com vasta diversidade cultural e, por isso, é essencial derrubar barreiras históricas para que a inclusão digital seja realidade para todos. A tradução de tutoriais para línguas como o Akwê reforça que a inclusão digital é verdadeira quando respeita a identidade de cada grupo. Essa ação ajuda a combater o apagamento linguístico e a reconhecer esses idiomas como meios válidos de acesso a direitos e políticas públicas”, afirma.
Língua e Educação: Um Caminho para a Autonomia Cultural
Embora a revitalização do Akwê seja vital para a soberania cultural dos Xakriabás, José dos Reis alerta que, atualmente, a maioria da comunidade não fala sua língua original. O português, imposto como idioma obrigatório por muitos anos, contribuiu para essa perda. Dados do Censo mostram que, entre os 1,19 milhão de povos indígenas com 15 anos ou mais, cerca de 308 mil são falantes de línguas indígenas, com uma taxa de alfabetização de 78,5%, inferior aos 85% de alfabetização entre os indígenas em geral.
Na perspectiva de José, é fundamental que as crianças aprendam tanto o Akwê quanto o português simultaneamente, aproveitando a facilidade de aprendizado na infância. “Devemos iniciar o ensino bilíngue desde cedo, pois as crianças aprendem com mais facilidade. Temos jovens que já pronunciam palavras em português, o que demonstra essa adaptabilidade”, observa.
Brasil Antenado: Um Acesso Inclusivo e Acessível
De acordo com Gina Marques, o programa Brasil Antenado visa garantir que todos os que têm direito ao benefício possam acessar a tecnologia. O intuito é assegurar que a qualidade do sinal digital chegue a todos, superando barreiras de informação. A tradução é fundamental para a autonomia das comunidades ao consumir e interagir com os conteúdos disponíveis. “Identificamos que o português não era o idioma cotidiano de muitas famílias aptas ao programa, e percebemos que a comunicação precisava ser tão acessível quanto a tecnologia que oferecemos. O maior desafio foi converter um tutorial técnico em uma linguagem clara e respeitosa para cada povo. A participação das lideranças foi essencial para o sucesso desta iniciativa”, conclui.
Implementado pela Portaria nº 17.337 do Ministério das Comunicações, o programa distribui kits de antenas parabólicas a famílias de baixa renda e, até 13 de junho, chega à Fase C, que abrange 108 cidades em oito estados, incluindo Minas Gerais, beneficiando 56.500 famílias em 30 municípios do Norte do estado.
