O Impacto da Inteligência Artificial na Carga de Trabalho
O avanço da inteligência artificial (IA) no mundo corporativo, aliado ao aumento das demissões, especialmente no setor de tecnologia, está fazendo com que muitos profissionais se esforcem em demasia para garantir sua relevância. Como resultado, muitos estão dedicando mais horas ao trabalho, fazendo pausas menores e se esforçando para estarem sempre visíveis. Uma pesquisa da plataforma Resume.io, que ouviu mais de 3 mil trabalhadores, revelou que, para demonstrar seu valor, os empregados têm trabalhado, em média, 2 horas e 24 minutos a mais por semana — o que equivale a aproximadamente 125 horas extras ao longo do ano.
Esse cenário se reflete não apenas no aumento das horas trabalhadas, mas também em almoços mais curtos e na prática do chamado “teatro da produtividade”. Esse termo é utilizado para descrever quando as pessoas agem de forma a aparentar estarem ocupadas, mesmo que não estejam necessariamente sendo produtivas. Segundo especialistas, essa resposta ao avanço tecnológico pode ser contraproducente e gerar um efeito rebote.
As Consequências da Sobrecarga de Trabalho
Thiago Genaro, psiquiatra da Conexa, alerta que trabalhar mais horas não significa, automaticamente, uma maior proteção no emprego. Ele ressalta que o receio gerado pela inteligência artificial levou alguns profissionais a adotarem estratégias que, muitas vezes, não se alinham com as transformações que estão ocorrendo no mercado. “Trabalhar horas a mais não garantirá postos de trabalho”, afirma. Genaro argumenta que o futuro do trabalho parece estar mais ligado ao “como e para quê se trabalha” do que ao “quanto se trabalha”.
Emilio Salcedo, especialista em tecnologia da RS Systems, complementa essa visão, mencionando que a forma como a IA é incorporada nos ambientes corporativos pode intensificar a pressão por produtividade. Embora a inteligência artificial possa assumir tarefas repetitivas, ela também pode aumentar a cobrança por resultados, especialmente quando não há uma revisão adequada das metas e expectativas de desempenho.
Mudanças no Comportamento dos Trabalhadores
A pesquisa da Resume.io destaca que, em resposta a essas pressões, muitos trabalhadores estão alterando seus comportamentos diariamente. Um exemplo claro dessa mudança é o tempo dedicado às pausas. Para 55% dos entrevistados, o intervalo de almoço foi reduzido no último ano, e essa diminuição é amplamente associada à necessidade de se manter produtivo e visível. Em um ambiente de trabalho onde a eficiência tecnológica redefine as expectativas, o descanso se torna um risco percebido.
Outro ponto importante levantado pela pesquisa é o fenômeno do “teatro da produtividade”. De acordo com os dados, 67% dos trabalhadores sentem que precisam aparentar estar ocupados, adotando comportamentos como manter o status online constantemente ativo, responder a mensagens imediatamente e prolongar tarefas simples.
A Evolução das Métricas de Avaliação
Genaro acredita que essa lógica de trabalho excessivo tende a ser substituída por critérios de avaliação mais sofisticados. “Com o avanço da inteligência artificial, as métricas de desempenho devem se tornar cada vez mais detalhadas, identificando trabalhadores e setores com baixo engajamento e baixa produtividade”, explica. Além disso, mais da metade dos entrevistados notou mudanças na forma como seu desempenho é avaliado após a introdução de ferramentas de IA. Dentre esses, 16% identificaram que, se a tecnologia executa tarefas rapidamente, a expectativa é que eles também acelerem seu trabalho.
O psiquiatra aponta que, conforme a tecnologia assume tarefas repetitivas, há uma demanda crescente por habilidades de análise, tomada de decisão e criatividade. Salcedo reforça essa ideia, afirmando que a IA não substitui completamente categorias de trabalho, mas elimina funções específicas, exigindo que as responsabilidades sejam constantemente readequadas.
O Futuro do Trabalho e as Novas Competências
Nesse novo cenário, os profissionais que se destacam são aqueles que conseguem utilizar a tecnologia como aliada na análise, automação e tomada de decisão. As métricas de avaliação estão mudando; agora, mais do que horas extras ou apenas a presença física, são as entregas, o impacto e a capacidade de aproveitar a tecnologia que contam.
Embora a inteligência artificial já supere os humanos em tarefas como o xadrez, como ressalta Salcedo, ainda existem habilidades humanas, como emoção e criatividade, que são insubstituíveis. “O lado humano da experiência ainda não está no repertório da IA. É nesse conjunto de competências que o trabalhador deve investir e se destacar”, finaliza.
Apesar das necessidades de adaptação, o medo da substituição permanece como a maior preocupação para muitos trabalhadores. Para 34%, essa é a principal ameaça, enquanto 30% temem uma substituição gradual e 20%, que a IA será usada para intensificar a cobrança. Já 14% estão ansiosos por não conseguir acompanhar colegas que dominam melhor as novas tecnologias. Genaro destaca que, para enfrentar esses desafios, o desenvolvimento de novas habilidades em harmonia com as ferramentas de IA representa o melhor caminho para os trabalhadores do século XXI. Ele também enfatiza que a pressão por produtividade pode intensificar a sensação de insegurança e sobrecarga, especialmente quando a adoção da tecnologia não é acompanhada por ajustes nas expectativas de desempenho.
