Desenvolvimento sustentável e tecnologia se encontram em projeto pioneiro no Brasil
Um projeto inovador no Pará resultou na criação de um drone aéreo que utiliza miriti como material principal, garantindo uma nova patente que destaca o avanço científico nas instituições públicas brasileiras. A iniciativa, fruto da colaboração entre o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), o Centro Integrado de Educação e Tecnologia (CIET) e a empresa Darth Drone, resultou em um Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT) acessível e mais resistente a impactos e água.
Batizado de Aero Miriti Forest, o drone possui cerca de 20 cm, conta com quatro hélices, câmera 4K, sensores de aproximação e antenas que se assemelham a modelos comerciais disponíveis no mercado internacional. O grande diferencial é o uso do miriti, extraído da palmeira do buriti, que minimiza o impacto ambiental da produção. A idealizadora do projeto, professora Keila Cattete, natural da região quilombola de Abaetetuba, destaca que cresceu em um ambiente onde o conhecimento tradicional sobre o uso do miriti era comum. Sua entrada no programa de mestrado em Engenharia de Materiais do IFPA foi fundamental para dar vida a essa proposta inovadora.
“A qualidade do drone se deve ao fato de que o miriti protege a placa, que é uma parte crucial do equipamento. Em caso de impacto, ele atua como um amortecedor, reduzindo o risco de danos. Isso significa menos gastos para manutenção, além de um custo inicial menor”, explica Keila. A professora, que também é pilota qualificada de VANT e criadora do primeiro torneio de drones do Brasil, conforme afirmações da Força Aérea Brasileira (FAB), está finalizando o projeto e já planeja a criação de um novo protótipo, que será destinado à venda. O Aero Miriti Forest é capaz de custar até 30% menos que os drones convencionais, o que o torna uma alternativa econômica.
Keila afirma que a proposta é tornar o drone acessível não apenas para o comércio, mas também para comunidades tradicionais, agricultores e profissionais da área. As aplicações incluem georreferenciamento, mapeamento e segurança, além de atividades voltadas para a agricultura. O projeto também poderá gerar novas oportunidades de emprego para a população local de Abaetetuba, que terá a chance de se envolver na produção dos drones.
O caráter inovador do Aero Miriti Forest atraiu a atenção de organizadores do Bett Brasil 2026, o maior evento de Inovação e Tecnologia para Educação na América Latina. O encontro, que ocorrerá em maio, reunirá 47 mil educadores e especialistas de todo o Brasil, servindo como uma vitrine para iniciativas brasileiras.
“A produção nacional traz um valor agregado ao mercado de trabalho, especialmente no setor de engenharia. Embora existam muitos pesquisadores e projetos promissores, a falta de patentes impede que eles cheguem ao mercado. Este produto, por sua vez, já está em avançado estágio de desenvolvimento para produção em larga escala”, enfatiza Keila.
A aeronave, que é operada remotamente, está sendo aprimorada para uma segunda versão que se adapte melhor à realidade da Amazônia, caracterizada por chuvas intensas e muitos rios. O contato dos equipamentos tradicionais com a água pode danificar seus componentes eletrônicos, mas a proposta para o Aero Miriti Forest é que ele seja resistente à água e impactos, com a capacidade de decolar de superfícies aquáticas.
O técnico em robótica e programação de drones, Marcio Santos, da empresa Darth Drone, desenvolveu o software que controla o drone. “Trabalhamos a dinâmica e o diâmetro do corpo do drone, programando sua capacidade de voo estratégico, que deve resistir a ventos de certa intensidade, além de estabelecer os parâmetros básicos para a operação da aeronave”, explica.
A construção do drone se deu no Laboratório de Fabricação Tecnológica (Fablab) do IFPA, que utilizou recursos amazônicos na elaboração do projeto. “A ideia de desenvolver uma tecnologia sustentável e conectada à Amazônia é uma vertente essencial do curso de Engenharia de Materiais do IFPA Campus Belém”, comenta Laércio Gouvêa Gomes, doutor em Engenharia Mecânica e responsável pela orientação do projeto.
Laércio destaca as qualidades do miriti para essa aplicação. “O drone feito com esse material é ultraleve e possui uma densidade reduzida, o que favorece a sua impermeabilidade. Através de estudos sobre suas propriedades mecânicas, identificamos que o miriti tem um desempenho excelente em termos de flexão, suportando grandes esforços”, assegura.
O professor ressalta a relevância desse tipo de conhecimento ser gerado dentro de instituições federais, uma vez que promove a integração entre pesquisa e educação. “Esse ambiente é multicultural e multidisciplinar, permitindo o desenvolvimento de tecnologias em diversos campos do saber”, conclui.
