Desigualdade na Cobertura 5G no Pará
Quatro anos depois da implantação do 5G no Pará, a tecnologia ainda não conseguiu oferecer uma experiência de conexão uniforme em todo o estado. Enquanto as áreas urbanas apresentam avanços consideráveis, as regiões rurais seguem praticamente sem acesso ao serviço. Os dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que, em junho de 2026, 51,73% das áreas urbanas do estado estavam cobertas pelo 5G, contra apenas 0,22% das áreas rurais.
Essa disparidade reflete diretamente na população: 76,22% dos moradores urbanos já têm acesso à rede 5G, enquanto apenas 2,58% dos residentes em áreas rurais contam com a tecnologia. Esse cenário acentua as desigualdades regionais no acesso à internet de alta velocidade e levanta dúvidas sobre a efetividade da implantação da nova geração da telefonia móvel no estado.
Velocidade de Internet e Ranking Nacional
O desempenho da internet no Pará também revela desafios. Segundo o ranking Minha Conexão do segundo trimestre de 2026, o estado ocupa a 19ª posição na velocidade média, com 176 Mbps. Nenhuma cidade paraense figura entre as 30 cidades brasileiras com internet mais rápida nessa pesquisa. Entre as capitais da Região Norte, Belém aparece em 16º lugar, atrás de Rio Branco, Porto Velho, Boa Vista e Palmas.
Esses números indicam que, apesar da disponibilidade crescente do 5G nas áreas urbanas, o serviço ainda não proporciona a velocidade e a qualidade esperadas para os consumidores paraenses. A velocidade média registrada, por exemplo, é menos da metade da do Acre, líder no período, que atingiu 389,13 Mbps.
O 5G na Prática: O que Realmente Muda?
A chegada do 5G foi acompanhada por promessas de conexões mais rápidas, menor latência, maior estabilidade e capacidade para suportar mais dispositivos simultaneamente. Para Allan Costa, professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA), esses avanços são perceptíveis, especialmente em locais com infraestrutura 5G consolidada, como ambientes universitários e centros urbanos.
Ele destaca que, em situações de alta demanda, como chamadas de vídeo, a menor latência do 5G reduz atrasos, e a capacidade ampliada melhora a qualidade da transmissão. No entanto, a disponibilidade real da rede é condição fundamental para que o usuário experimente esses benefícios.
Limitações do Uso do 5G
Ter um celular compatível com 5G não garante acesso automático à rede. A conexão depende da cobertura da operadora, qualidade do sinal e do plano contratado. Além disso, o recurso de handover permite que o aparelho alterne entre redes 4G e 5G conforme o movimento do usuário, o que pode resultar em variações na experiência de uso.
Para avaliar a efetividade do 5G, é necessário analisar indicadores técnicos como velocidade de download e upload, latência e estabilidade da conexão, e não apenas observar o símbolo “5G” na tela do aparelho.
Distribuição Municipal do 5G no Pará
O cenário de cobertura 5G varia significativamente entre municípios paraenses. Dados da Anatel apontam que 72 dos 144 municípios têm mais de 10% da população coberta pela tecnologia, enquanto a outra metade está abaixo desse índice. Na Região Metropolitana de Belém, cidades como Ananindeua, Belém e Marituba apresentam cobertura próxima da universalização.
Entretanto, em municípios do interior, a cobertura chega a ser nula. Locais como Uruará, Abel Figueiredo, Anajás, entre outros, não registram moradores cobertos pelo 5G, segundo os dados oficiais. Essa disparidade evidencia os desafios geográficos e econômicos para a expansão da rede em áreas de baixa densidade populacional e de difícil acesso.
Desafios Geográficos e Infraestrutura
O Pará enfrenta obstáculos naturais para ampliar o 5G, como a extensão territorial, a presença de rios e ilhas, e a dispersão populacional. Allan Costa explica que instalar e manter infraestrutura capaz de suportar o volume de dados do 5G em áreas isoladas é mais custoso e complexo.
Essa realidade explica o baixo índice de cobertura nas zonas rurais: apenas 0,22% da área rural tem acesso à rede, enquanto mais da metade das áreas urbanas já é contemplada. A dificuldade para levar a tecnologia para o interior limita o impacto do 5G no estado.
Operadoras e Cobertura Populacional
Considerando as principais operadoras TIM, Claro e Vivo, a Anatel aponta que, conjuntamente, 57,86% dos moradores do Pará têm cobertura 5G, com 58,66% dos domicílios atendidos. Separadamente, a Claro lidera com 48,91% da população coberta, seguida pela Vivo (48,29%) e TIM (43,99%).
Porém, quando analisada a cobertura territorial, os números caem drasticamente, variando de 0,09% a 0,41%, reforçando que a maior parte da população está concentrada nos centros urbanos, onde a infraestrutura está mais presente.
O Impacto Além do Celular
Allan Costa ressalta que o 5G no Pará pode ir muito além da simples melhora na velocidade da internet móvel. A tecnologia permite aplicações que exigem baixa latência e alta capacidade de conexão, fundamentais para projetos de cidades inteligentes e monitoramento ambiental.
Nas universidades, por exemplo, sensores conectados via 5G já são usados para coletar dados sobre buracos nas ruas, poluição, temperatura e outros indicadores ambientais em tempo real. O network slicing possibilita que diferentes serviços utilizem a mesma infraestrutura com características específicas, beneficiando desde empresas até serviços de emergência.
Apesar dos entraves atuais na cobertura, o 5G tem potencial para transformar setores e serviços no Pará, desde que a expansão da infraestrutura acompanhe as necessidades reais da população e das indústrias locais.
