Uma Luta por Justiça e Reforma Agrária que Persiste no Brasil
João Stédile, figura emblemática do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), recorda com pesar os dias marcados por tragédias que mudaram a história do Brasil. Ele estava em uma atividade no Paraná, ao lado do renomado fotógrafo Sebastião Salgado, quando o massacre aconteceu. O retorno a São Paulo foi rápido, e a coragem de Sebastião em registrar os eventos foi crucial para dar visibilidade ao caso globalmente.
Em abril de 1996, aproximadamente três mil trabalhadores marchavam no sul do Pará, em direção à capital Belém, reivindicando direitos sobre uma fazenda ocupada e denunciando práticas de trabalho escravo. A marcha, que deveria ser uma expressão pacífica da busca por justiça, se transformou em um verdadeiro pesadelo.
Enquanto os Sem Terra caminhavam de forma ordeira, dois pelotões da Polícia Militar do Pará cercaram o grupo. Os policiais, sem identificação e armados com armas letais, estavam ali para impedir o avanço da manifestação. O resultado foi trágico: dezenove trabalhadores foram mortos de maneira brutal, e outros dois faleceram após serem hospitalizados, enquanto mais de setenta pessoas sofreram sequelas permanentes que afetaram sua capacidade de trabalho na agricultura.
A justiça, que deveria trazer alívio às famílias das vítimas, não se concretizou. Apenas dois comandantes policiais foram condenados a 240 anos de prisão, mas cumpriram suas penas em confortáveis apartamentos em Belém. As investigações que buscavam elucidar a possível participação da mineradora Vale no massacre pouco avançaram, e o secretário de segurança do estado, que ordenou a repressão, saiu ileso.
Esse episódio ocorreu em um contexto de neoliberalismo sob o governo de Fernando Henrique Cardoso, que desprezava a reforma agrária. Sob pressão, o governo desapropriou a fazenda em questão, que atualmente abriga o assentamento “17 de Abril”, um espaço que simboliza, de certa forma, a esperança renascente.
O massacre gerou repercussões que chegaram a níveis internacionais. A obra “Terra”, que combinava as poderosas imagens de Sebastião com textos do escritor José Saramago e músicas de Chico Buarque, circulou por diversas exposições ao redor do mundo, amplificando a luta pela justiça social no Brasil.
Um ano após o massacre, o MST organizou uma marcha nacional, percorrendo 1.500 km até Brasília, em busca de justiça e da reforma agrária. Em 17 de abril de 1997, ao chegarem à capital, mais de cem mil pessoas se uniram em um ato em frente ao Congresso Nacional, clamando por mudanças significativas.
Após esse evento, o governo de FHC acelerou as desapropriações em um momento que ficou conhecido como um dos períodos mais produtivos da reforma agrária no Brasil. Três décadas depois, a luta continua, já que a concentração de terras no país se intensifica, agora sob a influência de práticas do agronegócio.
Hoje, os conflitos agrários se intensificam nas fronteiras agrícolas, onde interesses financeiros ameaçam o patrimônio natural e a resistência de povos camponeses, indígenas, quilombolas e ribeirinhos resiste bravamente.
Stédile menciona que o modelo clássico de reforma agrária, focado na democratização da propriedade, já não se sustenta. O desinteresse do Estado, da burguesia industrial e de parte dos governos atual é palpável. A reforma agrária, que um dia foi vital para o desenvolvimento de países industrializados, se encontra em um impasse.
O MST agora defende uma nova abordagem: a reforma agrária popular. A proposta visa atender às demandas de toda a população brasileira, promovendo a erradicação do latifúndio improdutivo e retomando as desapropriações. Para isso, a defesa da natureza é essencial, com planos de reflorestamento e a promoção da produção de alimentos saudáveis.
A adoção da agroecologia e a implementação de agroindústrias para processamento de alimentos são componentes dessa nova visão. O massacre de Eldorado do Carajás, ocorrido há 30 anos, permanece como um marco na história brasileira, e o dia 17 de abril se estabeleceu como um símbolo da luta pela reforma agrária, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. As ações em memória dos que perderam suas vidas na luta ainda mantêm viva a chama da luta pela democratização da terra e pela justiça social.
