Surto e Medidas Emergenciais
No início de 2026, o Ministério da Saúde declarou um surto da Doença de Chagas em Ananindeua, no Pará. Até a primeira semana de fevereiro, a cidade já contabilizava 42 casos e quatro mortes, um aumento de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior. Dados iniciais de 2025 mostraram que 627 casos agudos foram registrados, com alarmantes 97% dos casos na Região Norte. Em resposta a essa situação crítica, o Governo Federal anunciou um repasse de quase R$ 12 milhões, destinado a ações de vigilância em 155 municípios considerados prioritários.
O repasse, formalizado pela Portaria GM/MS Nº 9.628/2025, terá como foco ações de vigilância e controle da Doença de Chagas em 17 estados brasileiros. Os recursos serão aplicados em atividades contínuas nas áreas prioritárias, incluindo medidas de captura e monitoramento de vetores, além de uma vigilância e respostas rápidas a focos de infecção.
Repasse Financeiro e Critérios de Seleção
Conforme estipulado, o repasse financeiro tem caráter excepcional e temporário, sendo transferido em uma única parcela do Fundo Nacional de Saúde para os Fundos de Saúde Municipais e Distrital. De acordo com o ministério, a urgência das medidas de combate à Doença de Chagas é reforçada pelo cenário epidemiológico do país, que registrou 3.750 óbitos em 2024, com a maior incidência ocorrendo na Região Sudeste. Durante o mesmo período, 520 casos agudos foram identificados, especialmente no Norte, destacando o Pará.
A seleção dos municípios contemplados levou em consideração diversos critérios técnicos, incluindo a vulnerabilidade das cidades e a interação dos insetos vetores com o ambiente. A prioridade foi dada a municípios classificados como de risco “muito alto” devido à presença de vetores e condições socioambientais desfavoráveis. Localidades com registros recentes do inseto conhecido como “barbeiro”, cujas fezes abrigam o protozoário causador da Doença de Chagas, também receberam atenção especial.
Valores e Municípios Beneficiados
O total de R$ 11,7 milhões beneficiará 17 estados. Entre eles, o Pará é o que receberá o maior montante, com R$ 5,3 milhões, seguido pelo Ceará, que receberá R$ 1,5 milhão, e Pernambuco, com R$ 820 mil. Os valores foram distribuídos entre os municípios em parcelas únicas, variando de R$ 20 mil a R$ 250 mil por cidade. Algumas das cidades que receberão esse reforço incluem Cavalcante (GO), Calçado (PE) e Novo Horizonte (BA).
A lista completa dos 155 municípios beneficiados pode ser consultada na Portaria publicada.
Perigo de Epidemia Descartado, Mas Atenção Necessária
Apesar do surto decretado em Ananindeua, especialistas da Fiocruz descartam a possibilidade de uma epidemia no Brasil, alertando que a Doença de Chagas continua ativa no país, especialmente devido à transmissão oral. Roberto Saraiva, médico infectologista e pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), esclareceu que a classificação de surto foi realizada devido ao aumento significativo de casos na cidade, mas não há riscos de epidemia nacional.
Por outro lado, Fred Luciano Santos, farmacêutico bioquímico da Fiocruz Bahia, destacou que o Brasil tem enfrentado surtos esporádicos, predominantemente na Região Metropolitana de Belém, frequentemente relacionados ao consumo de açaí e outros produtos alimentícios locais. “A doença está em circulação e pode ocasionar novos surtos, especialmente em áreas com condições sanitárias precárias, onde alimentos são produzidos de forma artesanal e sem supervisão adequada”, concluiu Santos.
A Transmissão Oral e Prevenção
A transmissão da Doença de Chagas ocorre pela ingestão de alimentos contaminados com o protozoário Trypanosoma cruzi, que pode infestar produtos como o açaí por meio das fezes do “barbeiro” ou durante a manipulação inadequada do alimento. Para evitar essa forma de transmissão, os especialistas recomendam:
- Comprar produtos de origem confiável;
- Observar boas práticas de higiene na manipulação de alimentos.
“É fundamental que a população procure adquirir alimentos de quem os prepara corretamente, reduzindo assim o risco de contaminação durante todas as etapas do processo”, enfatizou Saraiva.
Diagnóstico e Tratamento
A Doença de Chagas apresenta duas fases: aguda e crônica. A fase aguda pode ser sintomática, enquanto a crônica frequentemente se manifesta de maneira assintomática ou por meio de sintomas cardíacos e digestivos. As complicações da doença podem incluir insuficiência cardíaca, dificuldades de deglutição e constipação intestinal, com problemas que podem persistir ao longo da vida. Os principais sintomas da fase aguda incluem:
- Febre prolongada (mais de 7 dias);
- Dores de cabeça;
- Fraqueza intensa;
- Inchaço no rosto e nas pernas.
O tratamento deve ser orientado por um médico, e o SUS disponibiliza o medicamento benzonidazol sem custos. Os especialistas afirmam que diagnóstico e tratamento precoces podem impedir a progressão da doença para formas mais severas e até mesmo a morte.
Incidência da Doença de Chagas no Brasil
Em 2006, o Brasil recebeu certificação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) pela interrupção da transmissão da Doença de Chagas pelo Triatoma infestans, conhecido como barbeiro. Contudo, focos da doença ainda persistem em Tremedal e Novo Horizonte, na Bahia. A Fiocruz, por meio do Projeto Oxente Chagas, atua na triagem sorológica da população urbana e rural, com a meta de testar cerca de 30 mil habitantes até 2027. No Rio de Janeiro, o programa LaPClin Chagas monitora aproximadamente 800 pacientes com a forma crônica da doença, oferecendo diagnóstico, tratamento e suporte.
