Desigualdade na Distribuição de Médicos pelo Brasil
Em 2025, o Brasil alcançou a marca histórica de 635,7 mil médicos, um incremento de 35,9 mil profissionais em relação ao ano anterior, segundo o levantamento Demografia Médica da Faculdade de Medicina da USP. Entretanto, a boa notícia é ofuscada pela desigualdade na distribuição desses profissionais pelo território nacional. Analisando os dados, percebe-se que enquanto as capitais têm excesso de médicos, o interior enfrenta uma crise significativa de escassez.
Atualmente, cerca de 1.800 municípios brasileiros, ou seja, um terço do total, possuem menos de um médico para cada mil habitantes no serviço público. Essa realidade é especialmente preocupante no estado do Pará, onde a concentração de médicos é alarmante: são 11.432 médicos em Belém, colocando o estado na décima quarta posição no ranking nacional, com uma densidade de apenas 1,4 médico por mil habitantes.
No interior do Pará, a situação se agrava. Nos 143 municípios, apenas 3.824 médicos atuam, resultando em uma densidade crítica de 0,6 médico para cada mil habitantes. Os dados são ainda mais alarmantes em cidades como Alenquer, que registra apenas 0,17 médico a cada mil habitantes, seguida por Muaná (0,21), Bagre (0,22), Portel (0,25) e Anajás (0,26).
Impacto na Saúde Pública e no Acesso Universal
De acordo com informações do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (Cnes), essa falta de profissionais compromete gravemente o acesso à saúde, um direito estabelecido pela Constituição. Em algumas localidades, a taxa de médicos chega a ser de apenas 0,2 por mil habitantes, um número alarmante se comparado à média nacional de 2,6. Um exemplo disso é São Pedro da Água Branca, no Maranhão, que, na divisa com o Pará, conta com apenas quatro médicos para atender aproximadamente 14.380 habitantes.
Esses dados foram coletados pelo Instituto República.org, revelando a desigualdade na distribuição de médicos tanto na rede pública quanto na privada. A Demografia Médica Brasileira, publicada em fevereiro pela Associação Médica Brasileira (AMB) e USP, já destacava esse problema, e as novas informações reforçam a necessidade de um olhar mais cuidadoso para essa questão.
O Desafio dos Recém-Formados e a Concentração nas Capitais
A desigualdade geográfica na distribuição de médicos também dificulta a inserção de recém-formados no mercado de trabalho. Enquanto as capitais e regiões metropolitanas concentram uma quantidade significativa de profissionais, o interior enfrenta um cenário desfavorável. Entre 2020 e 2022, o Brasil viu 154,8 mil médicos ingressarem no mercado, representando um crescimento de 32%. Além disso, o número de faculdades de medicina aumentou de 143 para 448 entre 2004 e 2024, mas a disparidade na alocação desses profissionais persiste.
A disparidade se torna evidente em relatos que circulam nas redes sociais, onde médicos comentam sobre a dificuldade em conseguir plantões nas capitais, transformando essa situação em piada. Conforme dados de 2023, o Brasil tem uma taxa de 2,98 médicos para cada mil habitantes, superior à de países como Estados Unidos e Coreia do Sul, mas ainda abaixo da média da OCDE, que é de 3,70. Dentre as 47 nações investigadas, o Brasil ocupa a 33ª posição em termos de densidade médica.
Essa realidade exige ações efetivas por parte das autoridades competentes, visando uma distribuição mais equilibrada dos profissionais de saúde pelo país. Somente assim será possível garantir que todos os cidadãos tenham acesso à saúde de qualidade, independentemente de onde residam.
