A Necessidade de uma Gestão Fiscal Eficiente
Cortar gastos no Brasil sempre foi uma tarefa complexa, especialmente no contexto político de Brasília, onde políticas públicas custosas e ineficazes costumam se perpetuar. Em tempos de emergência fiscal, as decisões mais simples muitas vezes prevalecem, resultando em cortes lineares nas despesas. Essa prática, conforme apontou Sergio Firpo, ex-secretário de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas do Ministério do Planejamento, gera uma frustração generalizada, mas é vista como uma solução menos desgastante. Firpo, que esteve à frente da secretaria por quase três anos, defende que a necessidade de cortes deve ser acompanhada de uma análise técnica e criteriosa das políticas em vigor.
Uma Nova Perspectiva sobre Cortes de Gastos
“Se é para cortar, vamos cortar com mais ciência, em vez de sair passando o facão em tudo”, afirmou Firpo. Ele enfatiza que bloquear despesas sem uma metodologia efetiva pode prejudicar a qualidade das políticas públicas. Com esse entendimento, Firpo assumiu a coordenação do Observatório da Qualidade do Gasto Público, uma iniciativa do Insper, apoiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela fundação de Claudio Haddad. O objetivo é estabelecer critérios e procedimentos que garantam decisões mais informadas sobre onde e como cortar gastos.
Desafios das Políticas Sociais
Dentre os programas que exigem revisão, Firpo menciona o Abono Salarial, cujos custos anuais superam R$ 30 bilhões, e questiona sua eficácia em reduzir desigualdades sociais. Ele aponta que muitos benefícios associados ao salário mínimo, como aposentadoria rural e pagamentos a pescadores artesanais, também enfrentam problemas de implementação e fiscalização. Em sua opinião, é necessário um olhar mais crítico e analítico sobre a eficiência dessas políticas e a forma como elas impactam a sociedade.
Revisão e Repriorização: O Caminho a Seguir
Firpo destaca que a abordagem deveria ser a de ‘repriorizar’, e não simplesmente cortar. Ele defende uma avaliação sistemática das políticas públicas, buscando identificar aquelas que não entregam resultados satisfatórios. “Quando se pensa em revisão de gastos, muitas vezes se recorre aos cortes lineares, que são a solução mais fácil”, explica. Essa prática, segundo ele, ignora a complexidade e a importância de políticas eficazes que realmente contribuem para a redução das desigualdades.
Reflexão sobre o Abono Salarial
Um dos pontos centrais da crítica de Firpo reside no Abono Salarial, que não teria gerado os efeitos esperados na diminuição das desigualdades sociais. “A coexistência de políticas assistenciais do passado deve ser reavaliada, principalmente em um cenário de mudanças nas características do mercado de trabalho”, argumenta. A proposta é que o benefício seja reformulado para incentivar a contribuição à Previdência Social, especialmente entre os jovens urbanos.
Políticas Públicas e a Necessidade de Fiscalização
Além do Abono, Firpo ressalta a importância de revisar outros programas, como a Previdência Rural e o Seguro-Defeso, que frequentemente apresentam irregularidades e baixa fiscalização. Ele defende que as regras de reajuste do salário mínimo e a vinculação dos benefícios previdenciários precisam passar por uma análise mais aprofundada. “É mais fácil alterar a regra de reajuste do que a vinculação, uma vez que esta é considerada uma cláusula pétrea da Constituição”, comenta Firpo.
A Crítica ao Bolsa Família
Por fim, a crescente preocupação em relação aos efeitos do Bolsa Família sobre o mercado de trabalho também é abordada por Firpo. Ele aponta que, embora o valor médio do benefício tenha aumentado, isso pode incentivar a permanência na informalidade, dificultando a acumulação de capital humano por parte dos beneficiários. “O desafio é encontrar um equilíbrio entre assistência social e estímulo à formalização dos trabalhadores”, conclui.
