Manifestação artística une paixão pelo futebol e crítica social em Belém
Em Belém, a chegada da Copa do Mundo 2026 ganhou um toque especial no bairro do Guamá. Um grupo de jovens decidiu pintar um trecho da rua Caraparu — apesar da lama e da ausência de asfalto — com as cores da bandeira do Brasil. A iniciativa, registrada em vídeo que viralizou nas redes sociais, mistura a tradição de decorar ruas durante os jogos da seleção com uma crítica à precariedade da infraestrutura local.
Enzo Henry, de 23 anos, idealizador da ação, explica que a ideia surgiu ao observar outras decorações em bairros diferentes. “Eu tava vendo todo mundo pintando a rua onde mora e queria saber como ficaria a nossa rua decorada”, conta. Fã de Neymar e apaixonado pelo futebol desde criança, Enzo ressalta que nunca viu um título brasileiro ao vivo, mas que o sentimento pelo esporte sempre esteve presente em sua vida. “Quando era criança, eu assistia aos jogos nos ombros do meu pai. Acho que esse sentimento pelo futebol existe em quase todo brasileiro, até em quem não é tão ligado ao esporte”, relata.
Rua sem asfalto vira palco de protesto criativo
A rua Caraparu, localizada entre as passagens Brasília e Redenção, sofre com alagamentos e acúmulo de lama, problemas que se intensificam no período chuvoso. Pintar a bandeira do Brasil diretamente na lama foi, para os jovens, uma forma de evidenciar essa realidade. “A gente decidiu pintar mesmo assim porque sabia que isso ia chamar atenção. Se chover, a pintura sai, porque é lama. Foi uma forma de mostrar como a gente vive”, explica Enzo.
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Além dele, Eduardo Costa, de 26 anos, também participou da iniciativa e reforça que o objetivo foi usar o humor para ampliar o alcance da mensagem. “Infelizmente essa é a nossa realidade. Nossas crianças vivem no caos, mas a esperança segue viva de que tudo isso vai mudar”, comenta. A repercussão da pintura nas redes sociais destacou a mistura de tradição e crítica social, chamando atenção para a situação das comunidades periféricas em Belém.
Tradição futebolística resiste em meio às mudanças
Entre as décadas de 1990 e 2000, era comum que moradores decorassem ruas com bandeirinhas verde e amarelas, pinturas e faixas para acompanhar os jogos da seleção. Com o tempo, essa prática perdeu força em muitas cidades, mas ainda permanece em bairros como forma de celebração coletiva, reforçando o sentimento de pertencimento e a convivência comunitária.
Obras da COP 30 e a expectativa pela melhoria da região
A Passagem Caraparu faz parte do projeto de macrodrenagem da bacia do Tucunduba, incluído nas obras previstas para a COP 30. O plano abrange drenagem, saneamento, asfaltamento, pavimentação, paisagismo, construção de passarelas, ciclofaixas e redes de abastecimento de água e esgoto, com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A conclusão estava prevista para novembro de 2025.
Apesar do cronograma, moradores relatam ausência de obras e continuam enfrentando lama, alagamentos e dificuldades de circulação. A Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop) afirma que as intervenções no Canal Caraparu seguem conforme o planejamento e que mantém diálogo com os proprietários para viabilizar a retificação do canal, fundamental para melhorar o escoamento das águas e combater os alagamentos.
