A Revolução das Feiras Orgânicas no Rio de Janeiro
Criado em 2010, o Circuito Carioca de Feiras Orgânicas se consolidou como um marco no cenário alimentar da cidade do Rio de Janeiro. Essa rede de produtores, que atua de maneira colaborativa, facilitou o acesso da população a alimentos livres de agrotóxicos. Com 13 pontos de venda espalhados por diversos bairros, o circuito não apenas ampliou o acesso a produtos agroecológicos, mas também impulsionou a produção nos municípios do interior fluminense.
Uma das figuras centrais da criação desse circuito é Cristina de Brito Ribeiro, uma influente produtora rural que tem se destacado na agricultura orgânica do estado. Segundo Cristina, “não havia um centro de distribuição de orgânicos, como um Ceasa, onde os comerciantes pudessem se abastecer para revender. Assim, decidimos implementar um sistema próprio, que permitisse a venda direta do produtor ao consumidor”.
A História da Produção Orgânica
O comprometimento de Cristina com a agricultura orgânica remonta a 1984, quando ela ajudou a fundar a Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio), da qual é coordenadora-executiva até hoje. Essa organização desempenhou um papel fundamental na promoção da produção orgânica na região, contando com 700 associados antes da pandemia, número que atualmente está em 450.
Inicialmente, seu trabalho começou em um sítio em Nova Friburgo, a 170 quilômetros da capital. O objetivo era garantir alimentos saudáveis e de qualidade para suas filhas. Gradualmente, o excedente da produção se tornou um negócio rentável. “Muitos agricultores têm histórias de familiares que sofreram com doenças graves devido ao uso de agrotóxicos. Isso os motivou a buscar alternativas mais saudáveis”, conta Cristina, agora com 71 anos.
Primeiras Feiras e Expansão do Circuito
Em 1994, a Abio organizou a primeira feira de produtos orgânicos na Praça do Russell, no bairro da Glória. Com apenas 16 feirantes e 35 barracas, a feira representava uma oportunidade em um mercado em expansão. “Os agricultores se sentiram motivados a participar, pois além de lucrar, demonstravam orgulho pela qualidade de seus produtos”, relembra Cristina, que também era uma das feirantes.
Embora a feira tenha sido crucial para a comercialização dos produtos orgânicos, ainda havia uma necessidade de ampliar o alcance. Com o tempo, os agricultores diversificaram seus pontos de venda, estabelecendo parcerias com mercados locais e realizando vendas em clubes e igrejas, construindo um público fiel aos poucos. A aparência dos alimentos orgânicos, que não segue o padrão dos supermercados, ainda gerava estranhamento, mas aos poucos conquistou a preferência de muitos consumidores.
Princípios da Agroecologia e Sustentabilidade
As feiras do Circuito Carioca são conhecidas por oferecer produtos orgânicos de base agroecológica. Cristina explica que a agroecologia se fundamenta em princípios que buscam respeitar os ciclos naturais e as relações necessárias para uma produção sustentável. “Um agricultor que segue as práticas agroecológicas não queima a vegetação, mantém o solo coberto e evita o uso de adubos químicos e agrotóxicos”, descreve.
O circuito começou na Zona Sul do Rio, em locais como Ipanema e Leblon, e com o passar dos anos se expandiu para a Zona Norte e Oeste, incluindo feiras em Tijuca e Barra da Tijuca. O sucesso das vendas é notável, com os consumidores cada vez mais atentos à qualidade dos alimentos que consomem e ao impacto ambiental das práticas agrícolas.
Certificação e Comunidade
Diferente de muitas feiras, a certificação dos produtos do Circuito Carioca é realizada pela própria Abio, adotando um modelo comunitário de verificação chamado Sistema Participativo por Garantia (SPG). Esse sistema é menos oneroso e promove o acompanhamento mútuo entre os produtores, garantindo a qualidade dos produtos oferecidos. Os produtos que recebem essa certificação são identificados com o selo “produto orgânico por garantia”, o que assegura aos consumidores a sua qualidade.
Para se manter no padrão, os agricultores seguem normas estabelecidas pelo Ministério da Agricultura e realizam reuniões periódicas para trocar experiências, discutir práticas e resolver problemas comuns. Essa estrutura permite que pequenos produtores, que não têm condições de arcar com as taxas de certificação tradicionais, possam atuar de forma competitiva e sustentável.
Logística e Desafios do Campo
Os produtos que abastecem as feiras vêm de diversas regiões, incluindo o interior do estado. Paulo Roberto Lima de Andrade, conhecido como Paulinho, é um dos responsáveis pela logística, transportando legumes e verduras de seu sítio e de outros produtores. Ele realiza a distribuição às feiras três vezes por semana, lidando com os desafios diários da agricultura. “A rotina na roça é exigente, mas é gratificante saber que estamos oferecendo alimentos saudáveis para a população”, afirma.
Paulinho também defende a agroecologia como um caminho viável para respeitar os ciclos naturais e enfrentar as mudanças climáticas. “Nossos métodos priorizam a saúde do solo e da biodiversidade, evitando a contaminação e promovendo a sustentabilidade”, conclui.
