Desafios e Oportunidades na Agroecologia
A agenda proposta pelo ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, durante a COP30, destaca a necessidade de fortalecer a agroecologia, a agricultura familiar e a promoção de alimentos saudáveis. Sua declaração, que inclui o reconhecimento dos saberes ancestrais de povos tradicionais e a necessidade de promover cadeias de sociobiodiversidade, reflete uma realidade que a ciência já aponta: o modelo hegemônico de produção de alimentos está esgotado.
Pesquisas de organizações renomadas, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ratificam a agroecologia como a alternativa mais sustentável para a produção agropecuária. Esta abordagem permite enfrentar os problemas do modelo convencional, como a dependência de insumos, a degradação dos recursos naturais, as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), e a contaminação por agrotóxicos, além de aumentar a vulnerabilidade às mudanças climáticas.
Entretanto, a adoção generalizada da agroecologia enfrenta obstáculos significativos. As forças econômicas e políticas do agronegócio, dominadas por megaempresas que controlam o setor, dificultam essa transição. A COP30, realizada em Belém do Pará, evidenciou essa contradição: apesar do uso de alimentos locais durante a conferência, o documento final das negociações não mencionou a questão alimentar, adiantando discussões para 2026.
O que é Agroecologia?
Para compreender a importância da agroecologia, é fundamental reconhecer que ela vai além de uma prática agrícola; trata-se de um movimento social e um campo de conhecimento que respeita saberes locais. Segundo Fabrício Muriana, diretor do Instituto Regenera, embora existam evidências sobre os benefícios da agroecologia em relação ao modelo convencional, a falta de dados robustos dificulta sua aceitação em larga escala. O especialista alerta que muitas vezes as soluções climáticas se baseiam em quantificações numéricas que ignoram as nuances dos ecossistemas e as necessidades locais.
O renomado pesquisador Stephen Gliessman define a agroecologia como a aplicação dos princípios da ecologia ao manejo sustentável de agroecossistemas. Essa abordagem abrange a produção de alimentos e suas dimensões sociais e econômicas. Miguel Altieri, a respeito, enfatiza que a agroecologia oferece princípios e metodologias para desenvolver práticas mais sustentáveis. Já Eduardo Sevilla Guzmán destaca a importância da ação social coletiva na promoção do manejo ecológico.
Movimentos Sociais e Iniciativas Agroecológicas no Brasil
No Brasil, a agroecologia é fortemente influenciada pelos movimentos sociais, principalmente pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que a consolidou como uma estratégia central em sua luta por reforma agrária. Com uma produção de arroz agroecológico que chega a 14 mil toneladas na safra 2024/2025, o MST tem se mostrado um exemplo de sucesso na transição agroecológica.
Apesar dos avanços, como a retomada de programas de assistência técnica, especialistas como Bárbara Loureiro apontam que as políticas de fomento à agroecologia ainda são dispersas. Sem um orçamento robusto, essas iniciativas não conseguem priorizar a produção agroecológica no desenvolvimento do país, pois os recursos continuam concentrados no agronegócio.
Além disso, uma pesquisa da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) com a Fiocruz revelou 503 experiências agroecológicas em diversas regiões, evidenciando a crescente adesão à agroecologia, especialmente entre as mulheres. Contudo, a resistência a essa transição se reflete na falta de políticas públicas adequadas.
A Agroecologia como Resposta às Mudanças Climáticas
Os desafios da agroecologia são amplos, incluindo a resistência política e a falta de investimento em tecnologias adequadas. No entanto, é crucial que a agroecologia deixe de ser vista como uma alternativa de nicho. A transição agroecológica deve estar vinculada a um projeto de soberania alimentar, com políticas que valorizem a diversidade produtiva e a organização social.
Em um cenário de crise climática, a agroecologia se apresenta como uma resposta viável. Bruno Prado, da ANA, destaca que a promoção da agroecologia é uma disputa política que envolve a concentração de terra e recursos. Por outro lado, as iniciativas de agroecologia urbana estão emergindo como uma ferramenta essencial para enfrentar os desafios nas grandes cidades.
O Papel das Políticas Públicas
Um aspecto fundamental dessa transição é a necessidade de um diálogo entre o governo e a sociedade civil. A reestruturação da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica é um passo importante, que deve ser acompanhado pelo fortalecimento de políticas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e a promoção de núcleos de estudo em agroecologia.
Embora haja uma crescente conscientização sobre a urgência da agroecologia, o caminho ainda é longo. A luta pela agroecologia é também uma luta social e política que visa transformar a forma como alimentamos a população, respeitando a biodiversidade e promovendo a justiça social.
