Mobilização Religiosa com Toque Político
A Igreja Universal do Reino de Deus está se preparando para uma mobilização inovadora, marcada para a Sexta-feira da Paixão, dia 3 de abril. A organização, liderada pelo bispo Edir Macedo, fechou o aluguel de nove estádios em várias partes do Brasil para realizar o evento religioso intitulado ‘Família ao Pé da Cruz’. Essa iniciativa, além de sua natureza espiritual, também carrega implicações políticas significativas, especialmente no atual contexto nacional.
O timing da mobilização coincide com um esforço do setor evangélico para aumentar sua influência nas negociações eleitorais e fortalecer suas relações com o Palácio do Planalto. Essa articulação foi detalhada na newsletter Jogo Político, do jornalista Thiago Prado, editor de Política e Brasil de O Globo.
A escolha de grandes estádios em diversas regiões do país é vista como um poderoso símbolo da força da igreja e de seu braço político, o partido Republicanos. Os locais reservados para o evento incluem estádios icônicos como o Maracanã, no Rio de Janeiro; a Neo Química Arena e o Pacaembu, em São Paulo; o Mané Garrincha, em Brasília; a Arena do Grêmio, em Porto Alegre; a Fonte Nova, em Salvador; o Independência, em Belo Horizonte; o Mangueirão, em Belém; e o Albertão, em Teresina.
Um Evento de Grande Escala
A expectativa é que esses encontros reúnam milhares de fiéis simultaneamente em várias capitais. Embora eventos religiosos em estádios não sejam incomuns no meio evangélico, a locação de tantas arenas ao mesmo tempo é inédita e reflete uma nova abordagem da igreja.
Além de promover a fé, a organização visa usar a visibilidade do evento para cimentar a influência política do segmento evangélico, especialmente em um momento em que a igreja reavalia sua posição para as próximas eleições.
A Influência de Renato Cardoso
O aspecto político da mobilização é intensificado pelo bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo e potencial sucessor na liderança da igreja. Em vídeos nas redes sociais, Cardoso se referiu ao evento como “a maior lata de conservas da família”, uma alusão irônica à ala “Família em Conserva”, que foi destaque durante um desfile em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ainda que as pesquisas indiquem que a popularidade do governo Lula é relativamente estável, especialmente para os evangélicos, muitas lideranças do setor continuam a criticar a gestão atual. Um levantamento recente do instituto Quaest mostra que 61% dos evangélicos desaprovam o governo atual, enquanto apenas 33% se mostram favoráveis.
Republicanos Busca Espaço nas Articulações
Apesar de sua presença significativa na política, o partido Republicanos expressa descontentamento em relação ao espaço que vem ocupando nas articulações políticas nacionais. Tais negociações têm favorecido, em grande parte, o PT e o PL, que priorizam parcerias com outros partidos do Centrão. Enquanto isso, os aliados do senador Flávio Bolsonaro estão em busca de alianças com siglas como União Brasil e PP, e o governo federal tenta atrair o MDB para uma possível chapa presidencial.
No contexto do estado do Rio de Janeiro, berço político da Universal, o partido tem estado ausente das principais composições para a eleição estadual. O prefeito Eduardo Paes e o secretário Douglas Ruas já formaram alianças para o governo sem considerar o partido nas posições chave.
Custos e Apoio dos Governos Locais
O evento “Família ao Pé da Cruz” acarreta elevados custos financeiros. O aluguel de grandes estádios para eventos religiosos pode atingir cifras milionárias. Por exemplo, a Neo Química Arena apresentou um custo de aproximadamente R$ 2,9 milhões para um show gospel realizado anteriormente, enquanto o Pacaembu, atualmente sob privatização, cobra cerca de R$ 1,25 milhão para eventos que exigem uso do campo.
Além disso, partes dessas iniciativas contam com apoio de governos locais. No caso de um evento da Igreja Batista Lagoinha em São Paulo, a prefeitura destinou cerca de R$ 4 milhões para a realização, enquanto o governo estadual do Rio de Janeiro planeja um patrocínio de aproximadamente R$ 5 milhões para a estrutura do encontro da Universal.
Histórico de Relação com Lula
A relação entre o presidente Lula e a Igreja Universal tem sido marcada por altos e baixos. Nos anos 1980 e 1990, Edir Macedo criticou diretamente o líder sindical, chamando-o de “demônio” em publicações da igreja. Com o passar dos anos, a relação se transformou, e a Universal passou a apoiar as candidaturas de Lula e, posteriormente, as de Dilma Rousseff.
Mais recentemente, a igreja e o Republicanos se alinharam com o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas o partido ainda mantém uma posição proeminente no governo atual, ocupando o Ministério de Portos e Aeroportos.
Disputas Internas no Republicanos
Ainda que o partido tenha uma forte presença política, ele também enfrenta disputas internas sobre candidaturas para as eleições estaduais e para o Senado. No Rio de Janeiro, o ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho Carneiro, já anunciou sua pré-candidatura ao governo estadual. Além disso, o partido está em conversações com o psiquiatra e influenciador digital Ítalo Marsili sobre uma possível filiação para concorrer ao Palácio Guanabara ou ao Senado.
Outro ponto de tensão envolve o deputado federal Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, que deseja disputar uma vaga no Senado. Entretanto, a direção do partido prefere que ele concorra novamente à Câmara dos Deputados como um pilar de apoio. A definição dessas candidaturas deve acontecer nos próximos meses e poderá ter um impacto significativo na estratégia política do grupo nas eleições nacionais.
