Modelo Inovador para Preservação de Espécies
Imagine a possibilidade de prever o desaparecimento de uma espécie antes que isso aconteça. Essa é a proposta de um novo modelo de inteligência artificial desenvolvido por cientistas da Universidade do Maine, nos Estados Unidos. Apresentado na revista Nature Communications na última segunda-feira, dia 16, essa ferramenta permite avaliar o risco de extinção de mais de 10 mil espécies de peixes de água doce em todo o mundo.
O sistema, resultado de cinco anos de pesquisa, analisa 52 variáveis diferentes para detectar ameaças e indicar os momentos em que é essencial que os gestores ambientais tomem medidas. O objetivo é transformar a abordagem atual nos programas de conservação, possibilitando intervenções antes que as populações de peixes cheguem a um colapso.
Atualmente, cerca de um terço das espécies de peixes de água doce enfrenta algum nível de ameaça de extinção, o que pode impactar não apenas as cadeias alimentares, mas também o equilíbrio dos ecossistemas e atividades recreativas relacionadas a esses animais. A professora assistente Christina Murphy, vice-diretora da Unidade Cooperativa de Pesquisa de Peixes e Vida Selvagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), destaca que ainda é possível proteger muitas dessas espécies, desde que as ações sejam tomadas de forma proativa. Um exemplo citado é a truta-alpina do Maine (Salvelinus alpinus).
Murphy enfatiza que a chave para a conservação eficaz é agir antes que o risco se torne irreversível. Com a nova ferramenta, espera-se que os pesquisadores consigam adotar uma abordagem mais preventiva, identificando espécies vulneráveis mesmo antes de serem oficialmente reconhecidas como ameaçadas.
Como o Modelo Funciona
O sistema foi criado a partir da integração de 12 bancos de dados públicos, principalmente da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Utilizando inteligência artificial, o modelo examina milhões de interações entre as espécies e seus ambientes, permitindo identificar quais estão sob risco imediato e quais fatores contribuem para essa vulnerabilidade.
Entre os diversos elementos analisados estão a construção de barragens, a retirada de água de rios, a degradação de habitats, a poluição, condições socioeconômicas e a presença de espécies invasoras. Ao compilar essas informações, a ferramenta acelera e amplia o processo tradicional de identificação de espécies ameaçadas.
O coautor do estudo, J. Andrés Olivos, da Universidade Estadual do Oregon, fez uma comparação interessante: segundo ele, os sinais de equilíbrio nos ecossistemas costumam ser mais consistentes do que as combinações de fatores que levam à extinção. Para os peixes de água doce, ambientes seguros tendem a seguir padrões previsíveis, enquanto o risco se acumula devido a múltiplas pressões simultâneas.
Os resultados obtidos foram comparados com avaliações existentes sobre espécies ameaçadas, o que possibilitou validar o modelo e confirmar se as ameaças também impactam espécies que ainda não estão nas listas de risco.
Contribuições para o Planejamento Ambiental
Além da previsão de extinções, o método desenvolvido ajuda a identificar quais estratégias de conservação têm sido mais eficazes. Em entrevista à Nature Communications, Murphy ressaltou que fatores socioeconômicos desempenham um papel crucial no sucesso das políticas ambientais, e que o modelo pode auxiliar na definição de novas ações a partir de experiências passadas.
Ao analisar padrões ecológicos, ambientais e econômicos, a ferramenta sugere intervenções que podem beneficiar diversas espécies simultaneamente. Dessa forma, gestores ambientais podem direcionar recursos antes que a situação de uma determinada população se torne crítica.
O professor Ivan Arismendi, também da Universidade Estadual do Oregon, alerta que muitas decisões de proteção ocorrem tardiamente. Ele acredita que o modelo permitirá que as autoridades ajam de forma antecipada, priorizando esforços enquanto as populações ainda apresentam possibilidades de recuperação.
A Expansão do Uso da Inteligência Artificial
A pesquisa teve início em 2020, quando Murphy começou um pós-doutorado na Universidade Estadual do Oregon, colaborando com Arismendi e Olivos. O projeto recebeu ainda aportes de cientistas do Serviço Geológico dos Estados Unidos, do Serviço Florestal e da Universidade de Girona, na Espanha.
Os pesquisadores agora visam adaptar esse sistema para outras categorias da biodiversidade, incluindo aves, árvores e diversas espécies de plantas e animais. O intuito é ampliar a aplicação da inteligência artificial na antecipação de ameaças e na formulação de políticas de conservação em uma escala global.
