Cuidados Necessários com Água de Alagamento
Após fortes chuvas em Belém, a formação de alagamentos é um problema recorrente que afeta muitos moradores. Ao atravessar ruas inundadas, muitos acabam em contato direto com água suja, o que pode parecer um ato comum, mas representa sérios riscos à saúde. Para orientar a população, a reportagem conversou com especialistas em saúde, como o médico infectologista Alessandre Guimarães e a dermatologista Regina Carneiro, que trouxeram informações valiosas sobre as doenças associadas à água contaminada.
Doenças Infecciosas e Contatos Perigosos
De acordo com o infectologista Alessandre Guimarães, a água proveniente de alagamentos frequentemente contém esgoto e urina de animais, especialmente roedores. Isso a torna um veículo de transmissão de diversas doenças, que podem ser classificadas em quatro grupos: vírus, bactérias, parasitas e fungos. Entre as doenças mais graves está a leptospirose, que pode evoluir rapidamente e, em casos extremos, levar à morte. Essa infecção ocorre quando a bactéria entra no organismo através de pequenas feridas ou cortes na pele, que entram em contato com a água contaminada. “É uma doença infecciosa grave, que pode ser evitada com cuidados simples”, afirma Guimarães.
Os primeiros sintomas incluem febre persistente, dores no corpo, dor de cabeça e cansaço. Entre o sexto e o sétimo dia, a icterícia pode aparecer e, se não tratada a tempo, a leptospirose pode levar à insuficiência renal e a necessidade de hemodiálise.
Outra doença bacteriana que merece destaque é a febre tifoide, que é transmitida principalmente pelo consumo de alimentos contaminados com água poluída. Seus sintomas incluem febre alta, diarreia ou constipação e, em casos mais graves, pode necessitar de tratamento intensivo.
O médico também ressaltou que há riscos de gastroenterites agudas, geralmente causadas por rotavírus e norovírus. Estas provocam diarreia intensa e também são transmitidas por água ou alimentos contaminados. A hepatite A, que é endêmica na região amazônica, apresenta maior risco em períodos chuvosos e, apesar de geralmente evoluir de forma benigna, pode causar sintomas incômodos que duram até 30 dias.
Entre as parasitoses, Guimarães mencionou infecções como necatoríase e amebíase, enquanto os fungos podem proliferar devido à umidade, aumentando o risco de micoses. A acumulação de água parada também cria condições favoráveis para a reprodução de mosquitos, elevando o risco de arboviroses como dengue.
Orientações Pós-Contato com Água Contaminada
O infectologista recomenda que nadar ou permanecer em água de alagamento deve ser evitado a todo custo. Se o contato for inevitável, o uso de proteções adequadas para os pés, como sacos plásticos grossos, é essencial. Após entrar em contato com água contaminada, é crucial lavar a área afetada com água e sabão neutro. Em casos de contato com esgoto, a orientação é buscar um médico para uma avaliação e, se necessário, iniciar o uso de antibióticos profiláticos.
Guimarães destaca que qualquer corte ou fissura na pele pode permitir que bactérias entrem na corrente sanguínea. “A pele é a principal barreira de defesa do corpo humano. Quando essa proteção é rompida, os riscos de infecções aumentam consideravelmente”, alerta.
Ele ainda enfatiza a importância de manter as vacinas em dia, especialmente contra hepatite A, gripe, meningite e covid-19. Para trabalhadores que têm contato frequente com água contaminada, como as equipes de limpeza urbana, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) é fundamental. Mesmo sem apresentar sintomas, quem teve contato com água de alagamento deve procurar avaliação médica, pois algumas doenças possuem um período de incubação de até duas semanas.
Riscos Dermatológicos e Prevenção
A dermatologista Regina Carneiro também alerta sobre as consequências do contato com água de alagamento. As infecções cutâneas mais comuns incluem micoses superficiais e infecções bacterianas como erisipela e impetigo, especialmente em pessoas com feridas na pele. “O contato prolongado com a água pode amolecer a pele, diminuindo sua capacidade de defesa”, explica. O uso de calçados molhados pode aumentar o atrito e causar microtraumas, aumentando o risco de infecções.
Os sinais de alerta incluem vermelhidão crescente, dor intensa, calor local, inchaço, secreção, febre e mal-estar. Após qualquer contato com água contaminada, é recomendado lavar bem a área, secar a pele, trocar roupas e calçados e manter a hidratação da pele. Para se proteger, Regina aconselha o uso de botas impermeáveis, evitar longos períodos na água e procurar ajuda médica ao notar qualquer lesão ou sintoma, evitando a automedicação.
10 Dicas para Proteger-se Após o Contato com Água de Alagamento
- Evite contato com água contaminada.
- Não nade nem permaneça em áreas alagadas, principalmente onde há suspeita de contaminação.
- Proteja seu corpo ao atravessar áreas alagadas.
- Se necessário, utilize proteção nos pés.
- Lave imediatamente a área exposta.
- Higienize a pele somente com água e sabão neutro.
- Busque atendimento médico para avaliação e profilaxia.
- Em caso de exposição a água de risco, procure uma unidade de saúde.
- Mantenha a vacinação em dia e utilize EPIs quando necessário.
- Assegure-se de estar vacinado contra hepatite A, gripe, meningite e covid-19, especialmente para trabalhadores que estão frequentemente expostos.
