A Iniciativa Sustentável
A implantação de jardins de chuva em áreas estratégicas de Belém, uma ação da Prefeitura através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), tem gerado diferentes opiniões entre os moradores e especialistas. Enquanto alguns enxergam essa proposta como uma alternativa ecológica promissora para minimizar alagamentos, outros argumentam que ela deve ser acompanhada de intervenções estruturais mais abrangentes.
Esses jardins são concebidos para atuar em locais selecionados da cidade, com o intuito de amenizar os problemas de alagamento. Funcionando como áreas verdes construídas em calçadas e vias, eles capturam a água da chuva, permitindo que ela seja absorvida lentamente pelo solo, reduzindo o escoamento superficial—que é uma das principais causas de enchentes—e filtrando sedimentos e poluentes antes que cheguem aos canais urbanos.
Expectativas da População
Na Travessa Quintino Bocaiúva, esquina com a avenida Conselheiro Furtado, o pedagogo Paulo Peres, de 65 anos, expressa uma opinião positiva sobre a iniciativa, mesmo sem conhecer todos os detalhes do projeto. “Eu não conheço o projeto, mas se ele vier para somar, para ajudar, eu vejo de uma forma positiva. Sendo um projeto que venha contribuir com a cidade, não só na questão de embelezar, mas na questão dos alagamentos, que é um dos problemas da cidade, eu acho válido”, afirma.
Para ele, a principal expectativa da comunidade é que a iniciativa não se limite a intervenções isoladas. “Como cidadão, a expectativa é a melhor possível. A gente espera que ela se espalhe pela cidade toda”, ressalta.
Por outro lado, a professora aposentada Maria Miranda, de 59 anos, demonstra mais cautela. Embora reconheça a relevância de iniciativas ambientais, ela acredita que o combate aos alagamentos exige uma abordagem mais integrada. “Eu acho muito difícil combater o alagamento só com isso, porque precisa de outros serviços, como a limpeza dos bueiros. Não é só aqui que alaga. A cidade toda tem esse problema”, afirma.
Maria compartilha sua experiência recente com os alagamentos: “Ontem mesmo enfrentei um problema quando saí daqui. A gente vai torcer para que dê certo, mas eu acredito que não seja o suficiente. Precisa de mais trabalho de saneamento básico para que esse serviço realmente funcione”.
Mais Locais e Intervenções
Os jardins de chuva estão sendo implementados também em outros pontos da cidade, como na Rua dos Mundurucus, esquina com a travessa Quintino Bocaiúva; na Avenida Marechal Hermes, ao lado do Porto Futuro; e na Travessa Rui Barbosa, esquina com a avenida Gentil Bittencourt, próximo ao Centur.
Uma Solução Complementar
O arquiteto e urbanista Rodolfo Castro, especialista em obras públicas, ressalta que os jardins de chuva representam uma abordagem técnica valiosa, mas não devem ser encarados como a solução definitiva. “O jardim de chuva é uma estratégia arquitetônica que utiliza um espaço com terra e vegetação apropriadas para reter a água que normalmente se acumularia nas ruas e sobrecarregaria os bueiros”, explica.
Ele enfatiza que esse sistema funciona como um “freio”, permitindo que a água infiltre lentamente no solo. “Ele não vai acabar totalmente com os alagamentos, mas reduz a sobrecarga nas galerias. É uma forma de resgatar a capacidade natural do solo de permitir a filtragem da água, algo que se perde nas grandes cidades devido à impermeabilização”, afirma.
Além de sua funcionalidade, Castro destaca os benefícios estéticos e ambientais. “Além de funcional, é bonito. Pode transformar o espaço público e melhorar a qualidade da água que chega aos rios, já que há filtragem pelas raízes e pelo solo”.
Para o urbanista, cidades como Belém, que enfrentam altos volumes de chuva, devem aprender a aproveitar as características climáticas locais. “A gente não precisa ver a chuva como um problema. Precisamos entender o nosso clima e usar as melhores estratégias urbanísticas para trabalhar em harmonia com a natureza, e não contra ela”.
