Música como Ato Político
“A festa existe porque a vida não basta.” Com essa citação de Nietzsche, Felipe Cordeiro abre seu novo álbum, “Close, drama, revolução e putaria” (2024), e transforma a afirmação em um manifesto cultural. Para o artista paraense, a diversidade musical da América Latina, que abrange estilos como tecnobrega, carimbó, funk e reggaeton, é uma poderosa forma de afirmação coletiva. “Quando a comunidade se reconhece na música, ela se fortalece”, destaca Felipe.
Neste sábado, 21 de fevereiro, o cantor e compositor sobe ao palco da Autêntica, em Belo Horizonte. Com um repertório que abrange sua carreira, desde “Kitsch pop cult” (2011) até seus lançamentos mais recentes, ele promete uma noite vibrante, acompanhada por baixo, beats eletrônicos e percussão. A abertura ficará por conta da talentosa Orquestra Atípica de Lhamas.
A Amazônia em Cena
Formado em filosofia, Cordeiro é uma das vozes mais influentes da música contemporânea amazônica. Filho do renomado guitarrista Manoel Cordeiro, ele cresceu imerso nas tradições da guitarrada, um gênero que emergiu no Pará nos anos 1970, além do carimbó e das festas populares. Suas composições são uma fusão de tecnobrega, cúmbia, lambada e música eletrônica, sempre acompanhadas de melodias contagiantes e letras que instigam reflexões sobre identidade, pertencimento e território.
“Busco afirmar minha narrativa e a do lugar de onde venho, que é político: o Pará”, comenta Felipe, trazendo à tona questões profundas sobre a construção da identidade nacional e a música brasileira. Para ele, esse processo foi historicamente dominado por movimentos culturais do Sudeste, especialmente entre as décadas de 1920 e 1970.
A Marginalização da Amazônia
Felipe argumenta que, apesar de algumas tentativas de descentralização cultural, como a cena de rock em Brasília e outras expressões do Nordeste, a Amazônia permaneceu à margem, tratada como um “quintal” do eixo político e econômico do país. “Essa sonoridade marginalizada é o que levo aos palcos, e o momento é oportuno, especialmente com as discussões recentes sobre a identidade nacional e a realização da COP 30 em Belém”, ressalta.
O músico não vê essa reafirmação territorial como algo oportunista. Segundo ele, essa busca por reconhecimento é um legado de seu pai, que desbravou o cenário musical nos anos 1970, enfrentando adversidades significativas. “Com as novas discussões sobre identidade, é fundamental que a Amazônia e os estados do Norte tenham voz, dadas suas características históricas, raciais e culturais únicas”, afirma Cordeiro.
Um Brasil Democrático
Essa visão, aliada à sua formação filosófica, permeia toda a obra de Felipe. Ele acredita que, ao defender a festa como um ato político, está também reafirmando o Pará como um território legítimo dentro da narrativa nacional. “O local não é periferia do global, mas uma forma autêntica de produção cultural”, argumenta.
No horizonte, Felipe Cordeiro vislumbra um Brasil mais democrático, onde a cultura e o território deixem de ser margens e ocupem um lugar central no debate nacional. “Esse é o desejo maior, contribuir para a construção de um Brasil em que a diversidade cultural seja celebrada e reconhecida”, conclui.
O show de Felipe Cordeiro acontecerá neste sábado, 21 de fevereiro, a partir das 21h, na Autêntica, situada na Rua Álvares Maciel, 312, em Santa Efigênia. Os ingressos para o segundo lote custam R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia). As vendas estão disponíveis online pela plataforma Sympla.
