Detalhes do Esquema de Bingo Ilegal
No dia 26 de janeiro deste ano, Ronnie Lessa prestou um depoimento por videoconferência, revelando detalhes sobre sua parceria ilícita com Rogério de Andrade, um conhecido bicheiro do estado. O relato, obtido exclusivamente pela GloboNews, mostrou como Lessa, preso em Brasília, montou um bingo clandestino na Barra da Tijuca em 2018. Em sua narrativa, ele destacou a necessidade de negociar com policiais civis e militares para garantir a operação do local.
Segundo Lessa, o universo do jogo ilegal é estruturado de forma que cada área possui um responsável. No caso da Barra da Tijuca, a região estaria sob a influência da família Andrade. Antes de abrir o bingo, Lessa procurou Rogério de Andrade para formalizar a sociedade, explicando que não poderia simplesmente iniciar o negócio sem a autorização de quem controlava a região.
Negociações com a Polícia
Após estabelecer a parceria, Lessa indicou que o próximo passo era tratar com as forças policiais. Ele revelou que contatou um amigo de infância, o delegado Marcos Cipriano, com o intuito de facilitar a comunicação com a então delegada titular da área, Adriana Belém. Lessa narrou que o encontro aconteceu em um restaurante próximo à delegacia, onde a abertura do bingo contou com a aprovação tanto da delegada quanto do chefe do setor de investigações, Jorge Luís Camilo Alves.
Antes da inauguração do bingo, o ex-PM confirmou que acertou o pagamento de propina a um policial militar da área, mas, apesar disso, o local foi fechado no dia da abertura, em julho de 2018, com a apreensão de 78 máquinas de jogo. Lessa e Gustavo de Andrade, filho de Rogério, estavam presentes, mas conseguiram escapar do cerco policial.
Recuperação das Máquinas e Consequências
De acordo com o depoimento de Lessa, dias após a interdição, a quadrilha conseguiu recuperar as máquinas apreendidas por meio de um novo acerto de corrupção, feito de forma separada do pacto inicial. Esta revelação acendeu novos questionamentos sobre a integridade das operações policiais no estado.
Em maio de 2022, os delegados Marcos Cipriano e Adriana Belém foram detidos na Operação Calígula, que investigou uma ampla rede de jogos ilegais no Rio de Janeiro. As investigações indicaram o papel dos delegados na inauguração do bingo, e, em um dos locais relacionados a Belém, foram encontrados aproximadamente R$ 1,8 milhão em dinheiro vivo. Atualmente, ambos respondem em liberdade por corrupção.
Confissões Controversas e Implicações Criminais
Durante o depoimento, Lessa também mencionou um crime de grande repercussão ligado ao assassinato da vereadora Marielle Franco, referindo-se ao caso como “o problema da vereadora”. O ex-PM admitiu ter efetuado os disparos que resultaram na morte da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes, e firmou um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República, cumprindo pena até 2037.
Reações e Defesas dos Envolvidos
A Polícia Civil reafirmou seu compromisso com o combate ao crime e não tolera desvios de conduta, informando que processos administrativos disciplinares estão em andamento contra os três citados. Enquanto isso, a defesa da delegada Adriana Belém contestou as afirmações de Lessa, alegando que a reunião mencionada por ele não teve relação com atividades ilegais e ocorreu muito tempo após o fechamento do bingo.
Os advogados de Belém argumentam que as provas mostram que a reunião foi marcada quase um mês após a interdição do bingo, o que, segundo eles, comprometeria a credibilidade do relato de Lessa. A defesa confia na absolvição de Belém ao final do processo.
Por outro lado, a defesa do delegado Marcos Cipriano afirmou que as evidências apresentadas pelo Ministério Público demonstram que Lessa mente em sua colaboração premiada, afirmando a inocência de Cipriano. Já a defesa de Jorge Luiz Camillo Alves optou por não se manifestar publicamente, ressaltando que qualquer esclarecimento será fornecido no momento apropriado em juízo.
